Cinemateca preserva a memória cinematográfica do País
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domingo, 02 de abril de 2000
Por Ubiratan Brasil 
São Paulo, 03 (AE) - Em poucos dias, um importante acervo da cinematografia nacional terá a acolhida devida. Este mês, a Cinemateca Brasileira finalmente inaugura seu depósito climatizado, espaço onde serão abrigados todos os originais dos principais realizadores nacionais. Um projeto iniciado há dez anos que, depois de duas interrupções e um custo total de R$ 1,5 milhão, tornou-se realizado graças a um punhado de incentivadores privados e governamentais.
A nova área, que vai contar com quatro câmaras climatizadas, será o destino certo de toda a cinematografia de, entre outros, Arnaldo Jabor, que confiou sua obra à Cinemateca há dois anos, e Joaquim Pedro de Andrade, cujos filmes estão sendo restaurados. "Em pouco tempo, teremos terminado o trabalho de O Padre e a Moça", conta Patricia De Filippi, arquiteta que, desde outubro de 1995, coordena o laboratório de restauração da Cinemateca, atual depositária de 150 mil latas de filmes nacionais e estrangeiros.
Ela divide o trabalho com o psicólogo Carlos Eduardo de Freitas, na Cinemateca desde 1979. Ambos são os únicos profissionais capacitados, em São Paulo, a realizar uma completa restauração - apesar de aparelhados, os grandes laboratórios não se interessam pelo trabalho em razão do tempo que consome. "São necessários no mínimo dois meses para um filme estar completamente restaurado", diz Patricia.
A escassez de pessoal habilitado e o número crescente de obras que exigem rápido reparo formam uma combinação perigosa: a cada ano, aumenta o número de obras que correm o risco de simplesmente desaparecer por causa da falta de cuidados. "Os filmes exigem condições especiais de temperatura e umidade", explica Carlos Eduardo. Quando chegou à Cinemateca, ele acompanhou aflito a estocagem de fitas em depósitos mal estruturados, no Parque do Ibirapuera. "Como uma parte do material era formada por filmes em nitrato, que é altamente inflamável, numa noite houve um incêndio, provocado pela autocombustão das fitas".
Apesar da mudança de material (o celulóide atual é mais seguro), a exigência de condições específicas de armazenamento continua. "Em condição perfeita, os filmes coloridos devem ficar em ambientes com temperatura abaixo de zero grau e as produções em preto e branco, a 18 graus, e no máximo 45% de umidade relativa do ar", explica Patricia. Manchas e fungos - O material recebido pelos técnicos de restauração, porém, permaneceu em ambiente bem mais tropical. Com o calor e a umidade, o filme inicia rápido processo de degradação: machas aparecem nos quadros, fungos instalam-se nas imagens e o filme começa a encolher. Se projetada nestas condições, a fita apresenta distorções na imagem, saltos constantes no quadro e problemas na banda sonora. "Muitos filmes chegam aqui em más condições", observa Carlos Eduardo.
Ele diz que as cristalizações que surgem no celulóide, por exemplo, além de provovar um odor desagradável, fazem grudar todo o rolo. A principal preocupação dos dois profissionais é recuperar a matriz do filme, ou seja, a fonte principal de todas as cópias que serão exibidas nos cinemas. O processo começa como um quebra-cabeça - como em alguns trechos as condições são piores, os restauradores fazem cópias desses pedaços a partir de várias cópias do filme. Assim, uma matriz pode ser recomposta a partir das melhores reproduções existentes.
"Tivemos de fazer isso com Pixote, de Hector Babenco, cuja matriz já estava em estado preocupante", conta Patricia. O paciente trabalho foi responsável pela preservação de filmes capitais, como "Sinfonia Amazônica", primeiro longa de desenho animado brasileiro, produzido entre 1951 e 57. E o sucesso da restauração deve-se em grande parte a uma máquina copiadora ótica, conhecida pelos técnicos como "janela molhada". É por ela que passam os filmes mais comprometidos, que recebem um banho de solvente, responsável pela limpeza. A máquina permite também a copiagem do original.
Depois de restauradas, todas as matrizes ficarão conservadas, em caixas de plásticos especialmente confeccionadas pela Cinemateca, no depósito climatizado. E o trabalho parece infinito: depois de "O Padre e a Moça", Patricia e Carlos Eduardo vão debruçar-se sobre um lote de filmes encontrados na Bahia, em que estão registrados desde cenas de carnaval das décadas de 30 e 40 até discursos de Getúlio Vargas.


