Cinemateca homenageia Affonso Beato, diretor de fotografia de Almodóvar
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quinta-feira, 11 de novembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 11 (AE) - É uma parceria de ótimo rendimento. O brasileiro Affonso Beato e o espanhol Pedro Almodóvar têm trabalhado juntos em filmes como "Carne Trêmula" e "Tudo sobre Minha Mãe", que a Sala Cinemateca exibe de amanhã (12) até o dia 18. Uma bela homenagem a essa dobradinha em que um brasileiro fornece as imagens pedidas pela imaginação delirante (porém controlada) do melhor diretor espanhol da atualidade, um dos maiores do mundo.
Não se trata de uma colaboração qualquer. Se a cor, o enquadramento, o trabalho com o plano visual são importantes em qualquer obra cinematográfica digna deste nome, em Almodóvar são fundamentais. Seus filmes, da maneira como os conhecemos, não seriam os mesmos não fosse o impactante tratamento visual a cargo de Beato. Relembre, por exemplo, os planos de abertura de "Carne Trêmula", um ônibus no interior do qual uma criança vai nascer em uma Madri transfigurada e mágica. Ou as sequências noturnas de "Tudo sobre Minha Mãe", rodadas em uma Barcelona perversa e atraente.
Há uma cor especial nesses filmes, há calor neles. O envolvimento do espectador passa por esse, por assim dizer, aliciamento visual. Os filmes em si são ótimos. Estão entre as melhores obras de uma carreira já consagrada antes deles. Nos dois, a problemática sexual, a preferida de Almodóvar, explode com toda intensidade e liberdade. Em "Carne Trêmula", há além disso, a dimensão política, bem mais rara em seus filmes. A história começa e termina com um nascimento. No primeiro, vive-se o período franquista. Quando o segundo bebê vem ao mundo
a Espanha já respira liberdade.
Em "Tudo sobre Minha Mãe", Almodóvar faz um verdadeiro estudo sobre a ordem (ou desordem, de acordo com o ponto de vista) sexual contemporânea. Há nele, a ousadia de um travesti atípico, que engravida duas mulheres cobiçadas. A grande arte do diretor está em tornar este e outros fatos incríveis verossímeis para o imaginário do espectador. Trabalha diretamente com a emoção, com pouquíssimo intelectualismo explícito. Mas não se iluda: há muito raciocínio, muita inteligência e compreensão da vida por baixo das tramas inventadas pelo cineasta.
Antes de ir ganhar a vida no Exterior, o carioca Affonso Beato assinou obras importantes no Brasil. Trabalhou com Julio Bressane em "Cara a Cara", e Antonio Calmon em "Copacabana Me Engana", que também será exibido pela Cinemateca em homenagem a Beato. O fotógrafo deixou sua marca no tempo do Cinema Novo, em filmes como "O Bravo Guerreiro", de Gustavo Dahl, e "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro", de Gláuber Rocha. O trabalho mais recente de Beato no Brasil foi em "Orfeu", de Cacá Diegues, que também será exibido pela Sala Cinemateca. Serviço - Affonso Beato e Pedro Almodóvar. "Carne Trêmula" (amanhã, às 18h15; sábado, às 15h30; domingo, às 14 horas); e "Tudo sobre Minha Mãe" (amanhã, às 20 horas e 21h40; sábado, às 17h30, 19h30, 21h30; domingo, às 17h40, 19h30, 21h30. R$ 8,00 e R$ 4,00 (estudantes e maiores de 60 anos). Sala Cinemateca. Largo Senador Raul Cardoso, 207, tel. 5084-2177. Até 18/11


