São Paulo, 08 (AE) - A Sala Cinemateca repete, a partir de amanhã (09), o Ciclo Robert Bresson, já apresentado ano passado no Espaço Unibanco. São sete filmes, em cópias perfeitas: "As Damas do Bois de Boulogne", "Pickpocket", "Procs de Jeanne DArc", "Au Hazard Balthazar"; "Mouchette a Virgem Possuída"; "Lancelot du Lac" e "LArgent". Os filmes foram selecionados pelo Ministério das Relações Exteriores da França para circular o mundo. O ciclo é indispensável e não há outro termo para defini-lo. Bresson, que ainda vive, aos 91 anos, é um mestre da concisão.

Sua obra compõe-se de meros 13 longas-metragens, distribuídos por 55 anos de carreira. Não precisava mais, porque sua filmografia guarda, talvez, a maior proporção de obras-primas numa carreira de cineasta famoso. Dos sete longas-metragens programados, pelo menos quatro encontram-se nessa situação: "Pickpocket", "Au Hasard Balthazar", "Procs de Jeanne DArc" e "Mouchette". São mais que belos filmes. São trabalhos referenciais, seminais, que não apenas perduram com todo o frescor, apesar de já antigos, como influenciaram de forma profunda os cineastas e filmes que vieram depois deles. Encontra-se por exemplo, no Scorsese de "Táxi Driver", a ascese pelo mal presente em "Pickpocket" ou mesmo em "Mouchette". Aliás, essa contaminação dá-se pela intervenção do roteirista de "Táxi Driver", Paul Schrader, que defendeu tese sobre Bresson, antes de escrever para Martin Scorsese.

Tematicamente, as sinopses indicam grande diferenciação. "As Damas do Bois de Boulogne" é uma adaptação mais ou menos livre de Diderot, contando com diálogos adicionais de Jean Cocteau. Conta a vingança de uma mulher contra seu ex-amante. A astúcia dela é convencer uma dançarina de cabaré, de hábitos duvidosos, a fingir-se apaixonada pelo homem que deseja arruinar. "Pickpocket" é ainda mais original. Um jovem batedor de carteiras aprimora-se com um profissional e adota o métier arriscado. Não se trata apenas do gosto pelo perigo. Nem de um modo de vida que rifa a própria vida e a liberdade. É mais que tudo sintoma de um processo auto-punitivo, que, no caso de Bresson, nada tem de freudiano, mas de busca da purificação pelo sofrimento, isto é, uma via cristã para a salvação, por paradoxal que possa parecer.

O personagem precisa ir preso para sentir-se livre, o que é apenas uma contradição aparente. Estar fora da crença seria a falta de liberdade absoluta. Pertencer a ela, com tudo o que implica de compromisso, seria, ao contrário, o caminho possível da libertação. É nesse registro que trabalha Bresson, e não no das motivações "pessoais" do sujeito psicológico.

Essa ausência de psicologia, a economia de recursos extrema marca também a filmagem do calvário de Joana DArc, para a qual o cineasta baseia-se apenas nos autos do processo. Compõe uma Joana altiva, determinada, bem diferente daquela mostrada por Carl Dreyer em outra versão memorável para a mesma personagem histórica. Os inquisidores da Joana de Bresson não conseguem entender as alegações da condenada. Isso porque perderam contato com a palavra divina. Mas esta alienação não é apenas um tema religioso, privativo dos adeptos do catolicismo de Bresson.

O que o artista aponta, de maneira mais geral, é para a perda de poder da palavra nos tempos modernos. Essa força regeneradora do verbo já não faz sentido hoje em dia. Mas com essa degradação, perde-se, ao mesmo tempo, a dimensão humana da comunicação e a possibilidade de contato com o sagrado.

"Au Hasard Balthazar" é um dos títulos mais originais, provavelmente o mais comovente. Mostra a condição humana pelo destino de um humilde jumento, que é visto da juventude à velhice, passando de mão em mão. Não se trata, mais uma vez, de identificação humana com um destino animal, mas simplesmente uma aproximação com a sina comum de todo ser vivo, destinado à decadência e à morte. Cinema seco - Em "Mouchette", os temas da violência e do estupro são abordados com o proverbial distanciamento do diretor. Nessa adaptação de Bernanos, vê-se um homem preparando armadilhas para animais. Daí à armadilha para uma jovem virgem é apenas um passo. Bresson vai passando de um elemento a outro, de uma significação à seguinte, sem em nenhum momento buscar a explicação, psicológica ou outra qualquer. Faz o cinema mais seco do mundo e, por isso mesmo, desperta uma funda emoção no espectador. Impossível copiá-lo. Só ele tinha o segredo dessa fórmula de paradoxo.

"Lancelot du Lac" é, dos títulos da mostra, o mais irregular. Feito em cores, narra a busca do Santo Graal e descreve o amor de Lancelot pela esposa do Rei Arthur. Num cineasta tão comedido quanto ele espantam as cenas que parecem saídas de algum trash movie. São, no entanto, exceções em um filme que, sem ser grande como os outros, mantém o interesse.

Os efeitos de uma nota falsa de 500 francos deram o mote para "LArgent", último filme rodado por Bresson. A história é adaptada de Tolstói (Nota Falsa) e recupera o antigo gume do diretor francês. A doutrina da culpa sem origem é perfeitamente ilustrada no caso do inocente que é punido a certa altura do drama. Verdadeira epifania, uma porta que se abre e deixa entrever o mecanismo de funcionamento do mundo e da condição humana, espremida entre a busca da inevitável transcendência e sua radical ausência no mundo laico. Trata-se de uma experiência estética única, engrandecedora, formativa.

É pena que a Cinemateca tenha perdido a oportunidade de ampliar o ciclo, transformando-o naquela que seria uma memorável retrospectiva completa de Robert Bresson, cineasta ainda relativamente desconhecido no Brasil. Faltam, principalmente, duas obras-primas como "O Condenado à Morte Escapou" e "Diário de um Pároco", que já passaram por aqui em outros tempos.

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