Curitiba - Pela primeira vez na restrita história do cinema paranaense, um longa-metragem está sendo totalmente filmado no Estado. O longa ''Corpos Celestes'', dirigido por Fernando Severo e Marcos Jorge, venceu o primeiro edital de cinema do Estado. O filme encerra as gravações na próxima segunda-feira, depois de seis semanas de filmagens em locações como Castro (41 quilômetros de Ponta Grossa), Araucária e Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba. No elenco, além de atores paranaenses, exigência do edital, nomes conhecidos do cenário nacional, como Dalton Vight (o Said, da novela ''O Clone'') e a pernambucana Carolina Holanda, que participou do primeiro episódio do seriado ''Mandraque'', na HBO.
Dois atores americanos Jeff Beech e S. Antar Rohit também participam da trama. O filme tem orçamento de R$ 1 milhão. Considerado de baixo orçamento na produção audiovisual, os diretores estão empenhados numa missão: fazer com que o público final não perceba que o orçamento foi restrito. Para isso, a produção do filme tem sido primorosa. Além das cenas externas, os diretores gravaram numa casa na Rua Presidente Taunay, em Curitiba, totalmente reformada para as filmagens. O local foi transformado no apartamento de Francisco (Dalton Vight), personagem central do filme.
Ainda na infância, Francisco herda de uma americano que ele conhece na cidade de interior em que vive com a família, a paixão pelas estrelas. E é esse homem, um astrônomo amador, que interfere no destino do jovem, deixando uma verba para custear os estudos do garoto (interpretado pelo paranaense Rodrigo Cornelsen) também como astrônomo. Anos mais tarde, já na capital, Francisco conhece Diana, que também vai mudar os rumos da sua vida. ''Ele é muito pragmático, acredita na insignificância das pessoas diante do universo. Até conhecer essa moça'', conta Vight a respeito do seu personagem.
Essa é a primeira vez que o ator trabalha numa produção paranaense e comenta que apesar da pouca experiência audiovisual no Paraná, os atores e equipe técnica de ''Corpos Celestes'' funcionam como um time. ''Está todo mundo muito afinado, então fica fácil gravar'', diz. Apesar de nunca ter tido uma ligação com astronomia antes, Vight diz estar se identificando com o personagem. ''Sempre observei as estrelas e sempre quis ser muitas coisas. Acho que por isso optei pela carreira de ator, que me dá possibilidade de viver várias vidas'', relata.
Essa é a quinta participação do ator no cinema. Vight foi escalado pelos diretores depois de um amplo estudo de atores com reconhecimento nacional que estavam na faixa dos 40 anos. ''Queríamos um ator global porque é mais fácil negociar com os distribuidores depois. Mas do elenco, 32 são paranaenses e apenas quatro são de fora'', conta Fernando Severo. Ele lembra que apesar da tamática do filme a astronomia encantar muita gente, foi poucas vezes retratada no cinema nacional.
O roteiro do longa surgiu de dois projetos distintos e que nasceram há pelo menos dois anos. Um deles é o argumento de um curta-metragem intitulado ''O Telescópio'', de Marcos Jorge. Mas quando surgiu o primeiro edital de cinema do Estado, Jorge e Severo decidiram juntar as idéias. Convidaram ainda Mário Lopes e Carlos Eduardo Magalhães para finalizar a trama e surgiu o roteiro final do longa. Para Severo, trabalhar um roteiro a oito mãos não foi o obstáculo maior do filme. Pelo contrário. ''Trabalhar um roteiro é até mais fácil quando se tem mais gente. É muito complexo definir os personagens e a inventividade de cada pessoa envolvida ajuda muito''. O mais difícil segundo ele, é tentar fazer um filme normal, com baixo orçamento.
Os filmes B.O. (como são conhecidos os filmes com orçamento inferior a R$ 1,8 milhão) precisam de muita habilidade para chegar à tela com qualidade. No caso de ''Corpos Celestes'', os diretores estão tendo tabalho dobrado, principalmente porque o filme tem muitas cenas externas e o clima de Curitiba não tem sido muito favorável. ''Estamos trabalhando com muito jogo de cintura'', brinca Severo. Algumas cenas, chegaram a ter 100 figurantes, o mesmo número de toda equipe envolvida, entre atores e equipe técnica.
De acordo com o diretor Marcos Jorge, as filmagens só aconteceram no tempo previsto porque houve um tempo dedicado aos ensaios antes das gravações. ''Foi um custo alto, mas com certeza fez a diferença na hora de gravar'', conta Marcos Jorge. Para ele, o investimento do governo no Estado na produção audiovisual também deve fazer diferença na história do cinema paranaense. ''Assim como acontece com setores industriais, é preciso investir para que futuramente o segmento possa caminhar com as próprias pernas'', conclui. ''Corpos Celestes'' tem previsão de lançamento para o segundo semestre de 2006.

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