Com transmissão pelo canal pago TVE - Televisión EspaÀola (canal 27 pela NET e 651 pela DirectTV), a Academia de Cinema da Espanha entrega hoje à noite os prêmios Goya-2003 às melhores produções lançadas durante o ano passado. A cerimônia, prevista para as 22 horas (horário espanhol), acontece no Palácio de Congressos del Campo de las Naciones, em Madri, e representa um momento de distensão no ambiente de crise já instalada na indústria espanhola de cinema - na verdade uma crise por falta de público, que anda virando as costas para o produto nacional. E se repetir a fórmula empregada nos últimos anos, a grande gala cinematográfica que há 16 anos celebra os talentos peninsulares deve se converter mais uma vez em objeto de muitas críticas, boa parte delas pela insistência dos produtores em seguir o modelo da festa de entrega dos Oscar. Frequentemente com muito mais constrangimento do que glória.
Outra polêmica instalada é a rivalidade mais ou menos declarada entre ''Fale com Ela'', de Pedro Almodóvar, e ''Los Lunes al Sol'', de Fernando León de Aranoa. Apesar do amplo reconhecimento internacional, com um invejável cartel de prêmios adquiridos e outros ainda a caminho, ''Hable com Ella'' traz uma assinatura com trânsito restrito no país. Não é novidade que o cineasta natural da Mancha, a exemplo de seu infeliz conterrâneo imortalizado na literatura, é também uma espécie de Quixote enfrentando os moinhos da desconfiança e da intolerância dentro da própria casa. Para se ter uma idéia da resistência doméstica à carreira bem sucedida de Almodóvar já a partir do final dos anos 1980, ele só obteve o reconhecimento através dos prêmios Goya em 2000, quando ganhou várias estatuetas, entre elas as de melhor filme e melhor direção por ''Todo Sobre Mi Madre''. E isto, com certeza, só foi possível depois de Cannes ter dado a ele o prêmio de melhor diretor.
Enquanto o resto do mundo se curva diante de um talento indiscutível e consagrado, a Espanha parece engolir a contragosto o sucesso e a fama de um de seus melhores e mais inquietos artistas. E é bem provável que esta inquietação de um homossexual assumido seja o que mais incomode a comunidade, não apenas a grande platéia anônima presidida pela supremacia ancestral da cultura dos ''cojones'' mas também o segmento ligado às artes e mais especificamente ao cinema.
Em entrevista veiculada na edição de 20 de janeiro no diário madrilenho ''El Mundo'', o veterano diretor espanhol Vicente Aranda, não disfarçando certo ressentimento e mesmo despeito, afirma que o êxito de Pedro Almodóvar nos Estados Unidos pode ser explicado porque ''o cineasta conta a Espanha como os estrangeiros querem que a Espanha seja contada''. Aranda diz ainda que não é nada estranho que os filmes de Almodóvar entusiasmem mais no exterior do que em seu próprio país. ''O mesmo acontece com Bergman ou Kurosawa. Está na Bíblia: ninguém é perfeito em sua terra''. Sobre ''Fale com Ela'', Aranda, autor de vários bons filmes como ''Amantes'' e ''Libertárias'', foi ainda mais ácido: ''O filme é bom, mas me surpreende que este diretor goste das senhoras com visón'' (sic). Polemista de plantão, há exatamente um ano o mesmo Aranda investiu furioso contra as muitas indicações de ''Los Otros'' aos prêmios Goya, acusando - injustamente, a propósito - o belo thriller de Alejandro Amenábar de fazer o jogo do cinema americano. ''Já nos levaram os dólares, agora querem levar nossos Goya'', disse ele na época. E há pouco tempo voltou às manchetes, desta vez não poupando ironias à carreira internacional e à fama de Penélope Cruz
Outra divergência a botar mais lenha nas já ''calientes'' vaidades hispânicas é que a Academia de Cinema preferiu indicar ''Los Lunes al Sol'' como representante oficial do país para concorrer a uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, deixando Almodóvar de fora. A resposta da imprensa estrangeira acreditada em Hollywood foi rápida e não deixou dúvidas: não apenas deu o Globo de Ouro a ''Fale com Ela'' como vem se mobilizando em lobby sem precedentes para garantir que o filme de Almodóvar concorra ao Oscar em diversas outras categorias. Esta movimentação conta também com o aval surpreendente e decidido da crítica norte-americana, que adotou definitivamente ''Hable com Ella'' como o melhor estrangeiro da temporada. Lançado há 10 semanas no mercado americano, de longe o mais impermeável ao similar estrangeiro, o filme fez até ontem expressivos U$ 3 milhões e 923 mil dólares e continua em exibição em 82 salas.

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