CINEMA/FESTIVAL Outro crime insolúvel em Veneza
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quinta-feira, 31 de agosto de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para Folha 2 
Exatas 24 horas depois de aberto o Festival de Veneza com o policial ''noir'' ''Dália Negra'', de Brian De Palma, chega às telas da laguna veneziana outro célebre assassinato irresolvido, também ocorrido à sombra daquela famosa inscrição nas colinas de Los Angeles. Em ''Hollywoodland'', outro bom filme americano em competição, o debutante em cinema Allen Courier (diretor de episódios de ''A Família Soprano'', ''Sexo e a Cidade'', ''Millenium'') afronta o tema da fama e da identidade indagando sobre o caso-enigma de George Reeves (Ben Affleck), ator que se tornou verdadeiro ícone como Super-Homem graças a uma série televisiva de enorme sucesso, sobretudo entre a garotada.
Morto com um tiro na cabeça em 16 de junho de 1959, aos 45 anos, Reeves teria se suicidado. Ou teria sido homicídio? Ou um trágico acidente? O caso é logo encerrado pela polícia, que por suspeitadas conveniências não era lá muito chegada em verdade e justiça. Mas a cética mãe do ator contrata um anônimo detetive particular Louis Simo (Adrien Brody), que se empenha em descobrir as ligações entre o misterioso caso. E também daquele personagem real com a sua própria vida. Neste sentido, o filme, antes de ser um ''noir'', é uma bem amarrada história sobre seres humanos, dois homens buscando sentido, através da fama, para suas existências complicadas.
A ''femme fatale'' de plantão aqui é Toni Mannix, vivida por Diane Lane, mulher do chefão da MGM, Eddie Mannix (Bob Hoskins). A investigação sobre a morte de Reeves leva a três hipóteses e cabe ao público, afinal, decidir por uma delas. Mas passados 50 anos, além da resolução do intrincado mistério que ainda apaixona, resta a reflexão sobre aquele mundo do cinema. Um mundo de máximo esplendor, afetado pelo impacto da nascente televisão, pronta para fabricar (e triturar) mitos de massa.
O filme funciona ainda melhor que ''Dália Negra'', porque o elenco aqui é superior até Ben Affleck dá conta do recado, enquanto Adrien Brody é a alma da trama - e porque não há tanta intromissão de elementos secundários, como direção de arte e música. Com menos pretensão que De Palma, e mesmo com uma história sob certos aspectos mais complexa, o estreante Courier se deu muito bem.
''The war is over, if you want it'', cantava John Lennon. A guerra acabou, desde que você queira. É esta a frase escolhida para a abertura de ''The US vs. John Lennon'', que os documentaristas David Leaf e John Scheifeld dedicam ao músico inglês e que está aqui em Veneza fora de concurso. A idéia é colocar em evidencia o papel de símbolo do pacifismo que o autor de ''Imagine'' assume entre 1966 e 1976, se opondo, com seus seguidos apelos públicos, contra a guerra do Vietnam e a política externa dos Estados Unidos.
O filme revela de maneira clara, objetiva (''sobretudo a quem tem menos de 40 anos'', disse Leaf durante a coletiva), o jogo sujo da administração Nixon para neutralizar a popularidade de Lennon e da mulher Yoko Ono, inclusive não deixando dúvidas sobre o papel de vigilância permanente que o FBI exerceu sobre o casal. Yoko aderiu ao projeto do filme, uma vez que Leaf e Scheinfield têm sólida reputação como autores de biografias feitas para a televisão americana sobre personagens famosos como Frank Sinatra, Rosemary Clooney e Bob Hope.
O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Veneza.


