As primeiras (mas não muitas) vaias neste 63º Festival de Veneza vieram ontem para ''World Trade Center'', dirigido por Oliver Stone. Não que o filme seja ruim, e não é. Mas conhecendo-se a veia transgressora do diretor, o resultado final desagradou a muitos, que não esperavam o desvio de rota que o coloca nos braços republicanos e alinhado com os falcões do Pentágono. Era tudo o que Bush precisava neste momento em que busca no quintal de casa, quase em desespero, mais apoio para continuar arranchado no Iraque. O filme vai bem de bilheteria nos EUA e deve ir ainda melhor a partir do dia 11, quando fará cinco anos que Bin Laden levou a guerra para dentro das fronteiras norte-americanas.
Stone reconta o 11 de setembro de 2001 através da história de John McLoughlin (Nicolas Cage) e Will Jimeno (Michael PeÀa), dois policiais nova-iorquinos que ficaram cerca de 24 horas soterrados nos escombros das Torres Gêmeas antes de serem resgatados em estado muito grave. ''A história de ambos era boa de contar'', disse o diretor na coletiva superlotada, muito por causa da presença dos dois sobreviventes, que vieram a Veneza com as mulheres.
Num certo sentido, a frase inicial ''como os fatos aconteceram'' abre a via do perdão para Stone. Na reconstituição que impressiona pelos detalhes realistas, pela forte pegada documental, pelo apelo à solidariedade e ao sacrifício: aí a emoção é genuína, sincera, comovente de verdade. Há, porém, uma presença que não é apenas fisicamente materializada como salvador. Um marine, dizendo-se enviado de Deus, uniformizado e lembrando aqueles que Kubrick eternizou em ''Nascidos Para Matar'', transita pelo filme com forte apelo ideológico. Como um John Wayne pronto para o acerto de contas em duelo no fim da rua poeirenta num western qualquer, o soldado irrompe na noite dos destroços como um templário em busca do Santo Graal.
E este não é o único sinal de sacralização no resgate dos dois homens. Um deles, em determinado momento, acredita ter visto Deus, e Stone dá forma a esta visão, um segundo salvador, agora com conotações religiosas. Nada contra, mas pode-se questionar a maneira como o diretor concebe e executa as duas sequências. Principalmente a do soldado, tornado anjo vingador que, depois daquele momento, seguirá para o Iraque em busca da retaliação, segundo informam os créditos finais e Stone confirmou na coletiva esta disposição vingativa, estendendo-a, mesmo sem procuração, a toda a humanidade. Vocês vão ter oportunidade de conferir estes momentos duvidosos e também os melhores sequências neste final de mês, quando ''World Trade Center'' estrear no circuito brasileiro.

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