CINEMA/FESTIVAL
Lars von Trier já é favorito em Cannes
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de maio de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes<br> Especial para a Folha 
Já não era sem tempo e impaciência. Depois de cinco dias em ritmo de treino, o 56º Festival de Cannes entra em campo não mais para cumprir tabela, mas agora valendo pontos e em ritmo de decisão. Aquele sempre tão esperado filme-desequilíbrio surgiu ontem. Não foi inteiramente uma surpresa porque a expectativa já existia e vinha sendo inflada em função de poucas pistas e informações quebradas filtradas aqui e ali, e pela própria fonte da criação - afinal há sempre a sensação de que ''alguma coisa'' vai acontecer, quando Lars von Trier está por perto. Pois a partir de agora Cannes-2003 já tem seu grande favorito. É ''Dogville'', uma experiência que demanda tempo de reflexão bem mais flexível para encontrar uma tentativa de enquadramento dos limites da imaginação, tal a originalidade e audácia desse dinamarquês de 47 anos que em 2000 ganhou sua primeira Palma de Ouro com o então também polêmico ''Dançando no Escuro''. Diante da engenhosidade do que se viu em três horas de filme, a segunda parece aqui estar muito próxima.
Ninguém fica indiferente ao filme. Embora muito aplaudido na sessão da crítica, ''Dogville'' já está dividindo opiniões. Os americanos, por exemplo, devem torcer o nariz. A razão? ''Dogville'' é também uma resposta direta à provocação feita por eles ao diretor von Trier quando ''Dancing in the Dark'' venceu em Cannes. Disseram a ele, naquele momento, que o diretor não poderia ter feito um filme com críticas à América sem nunca ter pisado lá.
''Aquilo me provocou'', disse ele ontem durante a coletiva. ''Pelo que me lembre, eles nunca pisaram em Casablanca quando fizeram 'Casablanca' e em muitos outros filmes sobre muitos outros lugares. Achei aquilo injusto, e foi bem naquele momento que decidi que faria mais filmes ambientados na América''. Há evidentes ilações sobre o lado perverso do ''american way of live'' e sutis estocadas de cunho político, como o trocadilho sobre o lugar onde estão ''the bushes'', os arbustos.
Primeira parte de uma trilogia que o cineasta provocativamente batizou de ''U, S and A'', ''Dogville'' é mais um - o sétimo - desafio experimental na carreira do mais travesso e genial criador cinematográfico dos últimos anos, um dos mentores do movimento Dogma 95 anunciado ao mundo em 1998 aqui mesmo em Cannes, o cenário que por direitos adquiridos melhor abriga estas manifestações de vanguarda. Sim, porque se torna impossível reclassificar o cinema de von Trier em qualquer coisa diferente de uma vertente alguns passos adiante de seu tempo.
Filmado secretamente na Suécia entre janeiro e fevereiro de 2002, a um custo de 12 milhões de euros, ''Dogville'' é a história de Grace (Nicole Kidman), bela jovem que chega à mínima cidade de Dogville, nas Montanhas Rochosas, fugindo de gangsters em plena crise econômica nos Estados Unidos, fim dos anos 1920. Os 15 habitantes do local a aceitam, mas em troca do silencio exigem dela diferentes tipos de compensação, como trabalho e favores sexuais. Ela assim vai aprendendo, à duras penas, que a bondade é relativa, enquanto não chega a revelação de um segredo que vai mudar para sempre a existência de todos. Von Trier diz que fez um drama sobre a tolerância. Pode ser, também. Mas o filme é muito uma parábola sobre crueldade e vingança, uma fábula moral contemporânea com um olhar mais detido nos Estados Unidos.
Um ''dream team'', o elenco reunido por von Trier, todos confessando o fascínio em trabalhar com métodos tão pouco ortodoxos e entregando-se a uma experiência enriquecedora também para eles. Se quiser, Nicole Kidman pode até se dar ao luxo de um retorno às frivolidades hollywoodianas que estará para sempre redimida, depois de ''De Olhos Bem Fechados'', ''Os Outros'', ''As Horas'' e ''Dogville''. E mais Lauren Bacall, Harriet Anderson, Udo Kier, Bem Gazzara, Jeremy Davis, Blair Brown, James Caan, Chloé Sevigny, Philip Baker Hall, Patricia Clarkson e Jean Marc Barr.


