O melhor da entrevista coletiva que se seguiu à projeção do primeiro filme em competição no 63º Festival de Veneza foi a presença do escritor James Ellroy, que escreveu o livro homônimo no qual ''The Black Dhalia'' (Dália Negra) é baseado. Também autor de ''L. A. Confidencial'', já adaptado para o cinema (e bem) por Ellroy não nega, ele é a cara de seus livros policiais que vendem como água, não só entre aficionados do gênero ''noir'', mas também entre gente que gosta de quem escreve bem, itens aliás cada vez mais raros quem escreve bem e quem lê.
Foi logo falando do assassinato da mãe, que o marcou e, claro, marcou suas muitas tramas em carreira bem sucedida também de crítica. Indiretamente elogiou o filme de Brian De Palma, inclusive as novidades que o roteiro introduziu, e abertamente ressaltou o elenco - que está bem, mas longe do brilhantismo. Na mesa, todos solícitos e bem postos, com destaque para as belas Mia Kirshner e Scarlett Johansson; os homens da história, Josh Hartnett e Aaron Eckhart, com função mais decorativa; e De Palma, simpático e comedido, achando que fez um grande filme.
Quase. Na média, é sim um bom filme, mas não vai se safar de alguns críticos mais ácidos, que torceram o nariz após esta estréia mundial. A trama começa linear, fácil, flui macia, parece que seu destino é a superficialidade. Enganoso: é a Los Angeles dos anos 1940, o argumento original é do mestre Ellroy, e quem assina é De Palma. Um cineasta que, quando está em estado de repouso, é inquietante. E quando em ebulição, é capaz de ir do aterrador ao sublime com maestria.
Uma coletânea de fixações do diretor desfila em ''Dália Negra''. Na história dos dois policiais que gostam da mesma mulher e das duas mulheres que gostam do mesmo policial, há obviamente dois triângulos amorosos. Mas os desdobramentos da intriga amorosa comportam muito mais e navegam na turbulência da engenharia dramática, que lida com corrupção policial, falência moral em todas as classes sociais, assassinatos, perversidade, verdades, meias verdades, amizade, lealdade, traição, a questão do duplo, o real e o imaginado, a culpa e a redenção. Boa parte daquilo que fez de De Palma um manifesto herdeiro de Hitchcock. E por falar em cinema, o roteiro trabalha muito com a questão do sonho e da realidade, matérias-primas da Hollywood de ontem. E de hoje. E de amanhã.
''Dália Negra'', um ''noir'' duro, está bem centrado nos postulados do gênero. Tem estilo, é elegante, vistoso em sua produção de arte que recria com riqueza de detalhes aquele universo de perdição - pode-se argumentar sobre um congestionamento de detalhes em cada cena. Mas isto está longe de ser crime hediondo. Há, por outro lado, a busca da redenção, objetivo do personagem vivido por Josh Hartnett, alguém que vai aos poucos perdendo a inocência sem querer perdê-la, relutante, assombrado pelo mal que parece estar por todos os lados.
No elenco, quem está melhor não veio a Veneza. Hilary Swank, a ''menina de ouro'' de Clint Eatwood, é a ''femme fatale'' com carismática presença, carregada de charmosa dubiedade, pivô dos acontecimentos. E ela tira o melhor partido de seu papel, que até nem é muito extenso.
O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Veneza.

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