Dois produtores, Emmanuel Benbihy e Claude Ossard, tiveram a feliz idéia, embora operacionalmente complicada, de convidar 20 cineastas de vários países para realizar um curta-metragem cada um, com menos de dez minutos, sobre um encontro amoroso num dos diversos e folclóricos bairros de Paris. De Montmartre à Bastille, das Tuileries ao XIV, da Place de Fêtes ao Quartier Latin. Dos irmãos Coen a Walter Salles, de Alexander Payne a Isabel Coixet, até de um improvável Wes Craven a Olivier Assayas e Gus Van Sant. A todos foi proposta a idéia de lançar um olhar amoroso ou dramático ou pitoresco ou simplesmente amável sobre seu bairro preferido da cidade.
O resultado final, após exatas duas horas, apresenta média muito boa, a maioria dos curtas levada a ótimo termo. A história dirigida por Walter Salles e Daniela Thomas resulta uma das melhores, sem nenhum ufanismo. Simples, narrada com enorme ternura, na verdade é a única que fala da ausência de um bairro: jovem mãe latina, empregada doméstica, levanta muito cedo, deixa o filho bebê numa creche depois de cantar uma canção de ninar, faz longa viagem desde seu bairro (o 16º ''arrondissement'') cortando toda a cidade e chega ao local de trabalho. Ali, solitária, ela vai cuidar de um outro bebê que não é o seu, mas a canção e o carinho são os mesmos que fazem seu filho dormir todas as manhãs na creche.
Muitos rostos conhecidos surgem nas histórias, num processo de enriquecimento contínuo. Steve Buscemi é fundamental para o efeito hilário da minicomédia dos Coen na estação do metro das Tuileries. Gena Rowlands e Ben Gazzara são o casal em véspera de assinar o divórcio, trocando farpas afiadíssimas no episódio dirigido por Gerard Depardieu.
Outro casal maduro tentando se acertar é vivido com bom humor por Fanny Ardant e Bob Hoskins. Natalie Portman é a hiperativa candidata a atriz que se apaixona por um estudante cego sob as ordens do alemão Tom Tykwer. Sérgio Castellito e Miranda Richardson estão esplêndidos também como o casal em vias de se separar, mas apanhados pela força do destino, com direção de Alfonso Cuarón.
Filmes reunindo episódios em torno de um mesmo tema são sempre de feitura complicada, em geral pouco imunes a contaminações indesejadas mas possíveis e um exemplo está hoje mesmo em exibição em Londrina. Altos se alternam com baixos neste ''Crianças Invisíveis'', sobre a infância interrompida por razões perversas e novamente ausente a patriotada, o melhor do filme corre por conta do episódio ''Bilu e João'', da brasileira Kátia Lund.
Mas em ''Paris Je T'Aime'' parece que a cidade homenageada resolveu direcionar seus bons ventos (e suas luzes) na direção certa. É uma coletânea que acaba esparramando seu bom astral sobre o espectador.
* O jornalista está em Cannes a convite da organização do festival.

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