CINEMA/FESTIVAL - Um forte candidato à Palma de Ouro
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terça-feira, 23 de maio de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para a Folha 2 
Um grande, envolvente, belíssimo filme chega em boa hora à mostra competitiva para não deixar os dois favoritos até então Almodóvar e Moretti muito à vontade. E também no momento exato em que a imensa platéia de cerca de 4 mil jornalistas começa a mostrar sintomas de certo esgotamento físico e desgaste no processo de avaliação, diante de tal profusão de imagens diária e ininterruptamente projetadas em seis salas, das 8 da manhã à meia-noite, em competição, hors concours, homenagens, paralelas. Assim, é um alívio sentir a paciência recompensada. E muito bem, por sinal.
Como o título sugere, ''Babel'' aquele episódio bíblico no qual gente falando muitas línguas construiu uma torre para chegar a Deus, e deu no que deu, um desastre por falta de comunicação é drama contemporâneo sobre pessoas distantes umas das outras porque há barreiras, algumas intransponíveis, que as mantém separadas. Dirigido pelo mexicano Alejandro Gonzalez IÀárritu, roteirizado pelo colaborador habitual, Guillermo Arriaga, com fotografia do também parceiro de sempre, Rodrigo Prieto, e interpretado por elenco internacional, o filme apresenta quatro histórias ambientadas em três continentes.
Terceira e última parte da trilogia iniciada em 2000 com ''Amores Perros'' e retomada três anos mais tarde com ''21 Gramas'', ''Babel'' narra a viagem de ônibus do casal Brad Pitt/Cate Blanchett pelo interior do Marrocos, em crise com a perda recente do filho menor há outros dois, envolvidos em narrativa que corre simultânea. Logo a mulher estará lutando pela vida, depois de ser atingida no pescoço por um tiro. Disparado por quem ?
Nas montanhas do Marrocos, dois garotos pastoreiam cabras. Eles recebem do pai um rifle recém comprado, para matar coiotes. Enquanto os dois meninos treinam a esmo, para saber quem atira melhor, um ônibus se aproxima pela estrada que corta as montanhas.
Na Califórnia, um menino e uma menina aguardam a volta dos pais em viagem pelo norte da África. A empregada mexicana, antiga e de confiança, cuida muito bem delas. Mas o que fazer, se ela precisa ir ao casamento do próprio filho, no México? O jeito é levar as crianças. O pai, abalado, liga falando sobre uma tragédia ocorrida com a mulher, e pede que a empregada fique em casa e cuide bem deles. A mexicana não cede, arrisca, eles vão à festa com ela. Mas há um caminho de volta a percorrer, pela sempre hostil fronteira entre os dois países.
Em Tóquio, adolescente surda-muda, em processo de solidão acentuado pelo suicídio da mãe, não se encontra emocionalmente com o pai e parte para a sexualidade extremada como forma de criar e desenvolver uma linguagem, algo assim como usar o corpo como instrumento de comunicação quando a palavra não existe.
Brad Pitt não veio a Cannes, mas enviou e-mail. Lamentou a ausência, justificou (a maternidade de Angelina Jolie) e ao final a parte que de fato interessa: afirmou seu enorme orgulho de estar em ''Babel''. Ninguém ''estrela'' filme de IÀárritu. Como os demais, o ator sua a camisa e o talento, aqui transformado em ordinário homem de meia idade apanhado no vórtice de uma crise sem precedentes. E os demais em cena oferecem aquele muitas vezes insuspeitado melhor de si. Mesmo os vários não profissionais, com quem o diretor trabalha pela primeira vez.
''Babel'' traz no cerne o tema que vem de herança e que também permeia este século 21: quebra de comunicação. Mas não apenas isso: nas várias pontas do novelo o espectador encontra histórias sobre pais e filhos, articuladas por um estilo narrativo já conhecido dos cinéfilos. E aquela carga de humanidade sempre transbordante em IÀárritu. E uma novidade: aqui o estilo do diretor surge mais linear, mais liberto daquele experimentalismo, daquele extremado exercício formal que foi ''21 Gramas''.
A reportar, obrigatoriamente, incidente até admissível em salas de exibição mundo afora (em Londrina, por exemplo...), mas imperdoável no templo numero um de Cannes, altar-mor da celebração do cinema, o Grand Theatre Lumière. Faltando cerca de 40 minutos para terminar, uma troca de rolos, imediatamente rejeitada aos gritos por uma platéia crispada pelas culminâncias da narrativa, interrompeu a projeção por cerca de 5 minutos. Reparado o equívoco, ao final a quebra da continuidade emotiva foi devidamente lamentada por todos.
* O jornalista está em Cannes a convite da organização do festival.


