CINEMA/FESTIVAL - Um filme fiel à Plínio Marcos
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de novembro de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Brasília, especial para a Folha 2 
Depois de um início com bastidores tranquilos, de resto característica já incorporada ao feitio do evento até mesmo em razão do número de pessoas ainda reduzido, desde ontem o 39º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro já apresenta uma dinâmica mais condizente com suas características de efervescência, de movimentado foro de debates oficiais e discussões pelos muitos espaços oferecidos pelo Hotel Nacional, sede histórica da mostra. Na segunda rodada da programação, infelizmente, os curtas metragens ''Noite de Marionetes'' e ''Dia de Folga'' não acompanharam a muito boa performance do segundo longa concorrente, o drama social ''Querô'', baseado no romance (e depois peça teatral) do dramaturgo Plínio Marcos.
Trata-se de um Plínio Marcos a rigor, vale dizer, com o universo marginal do dramaturgo surgindo intacto e explosivo na tela, com sua integral coletânea de excluídos e ''malditos'': adolescentes filhos de prostitutas e já transitando no mundo do crime pesado, policiais corruptos e corruptores, o inferno da prisão ''correcional'' com forte tendência ''supletiva'' - de crimes, ressentimentos, experiências desumanas, ódios, a tal segunda chance escorrendo sem volta pelas ruas que são terra de ninguém.
Pode não ser absolutamente fiel ao espírito da letra do original de Plínio Marcos, mas nenhum dúvida quanto à fidelidade sobre o que o autor pensava a respeito de valores humanos, sobre a dura realidade deste imenso segmento de excluídos e as poucas saídas que se apresentam a eles.
Estreante na ficção, o diretor Carlos Cortez teve à disposição recursos suficientes para realizar um filme que resultou em trabalho sólido, bem estruturado, com elenco sempre acima da média, todo em locações na cidade de Santos. ''Querô'' foi a realização de um velho sonho dele, que em 1998 queria fazer um documentário sobre o amigo Plínio Marcos. O dramaturgo não aceitou, mas disse que Cortez poderia filmar ''Querô''.
A exemplo do documentário ''Jardim Ângela'', temos uma vez mais a participação decisiva das oficinas de cinema, aqui batizadas de Oficinas Querô, que promoveram em Santos a descoberta e capacitação técnica e artística de jovens da cidade e periferia. Para o papel do adolescente Querô foi escolhido, entre 1.200 candidatos, o garoto Maxwell Nascimento, que se deu muito bem em todas as frentes, pelo menos até o momento. É de fato uma agradabilíssima revelação, alguém que soube compreender o personagem e, mais importante, soube receber a necessária orientação técnica do preparador de atores Luiz Mario Vicente, responsável ainda por outros 40 adolescentes selecionados que estão no elenco de apoio.
Num sentido que todos se lembram muito bem, a história de Maxwell lembra a de Fernando Ramos da Silva, o Pixote do clássico de Hector Babenco, tirado da marginalidade, elevado à fama da noite para o dia, contratado para o elenco global, triturado pela engrenagem televisiva, mastigado, cuspido, remetido de volta ao crime e afinal assassinado embaixo da própria cama, antes de chegar aos 20 anos.
Na coletiva ontem, depois de passar bom tempo se divertindo na piscina do hotel com os amigos também atores no filme, o jovem Maxwell garantiu que não vai virar um Pixote: ''Eu vi amigos meus serem presos, alguns até foram mortos. Quando vejo meninos indo para a Febem, acho que tive muita sorte. Hoje quero ser ator.''
O jornalista viajou a Brasília a convite da organização do festival


