Sinal destes tempos de filmes sem bandeira definida, de esforços que reúnem recursos diversos de co-produção multinacional. Um dos selecionados deste 64º Festival de Veneza, ''La Graine et le Mulet'', embora falado em francês e ambientado na França, é um detalhado olhar neo-realista que se debruça sobre a família, reunida num núcleo de imigrantes árabes radicados na região mediterrânea de Marselha. É dirigido pelo tunisiano radicado na França, Abdellatif Kechiche, e com um elenco coral de atores de origem árabe. A esta altura da mostra competitiva, o Leão de Ouro já tem forte candidato.
Aos 61 anos, Slimane Beiji foi descartado de seu trabalho portuário e aposentado. Está separado da mulher, os filhos são todos adultos, tem netos. Ele tem ainda uma outra família. E, embora cansado, um sonho: abrir um restaurante num velho barco, ''La Source'' (A Fonte), que ele compra a duras penas. Há os entraves. Os burocráticos são o empréstimo no banco, a licença na prefeitura. Em família, a ex-mulher e os filhos que lhe ditam as regras. Mas ele vai em frente, valendo-se de sua natural capacidade de agregação e da especialidade culinária nacional e da matriarca: cuscuz de peixe (no título original, os ingredientes: 'la graine' é o grão, e 'le moulet' a espécie de peixe).
O que fascina no filme é a maneira de olhar para dentro do ser humano, encaixado num contexto étnico, social, antropológico e psicológico. Neste caso específico, o que envolve de fato é o numeroso e multifacetado núcleo familiar. Na narrativa, as coisas acontecem quase sempre em tempo real e longo, porque Kechiche, decididamente apaixonado pela história que narra, acredita que real e longo é o próprio tempo da vida.
Há um almoço familiar - e que família: generosa, mesquinha, afetuosa, indiferente, bela, radical, adorável, detestável - que reporta aos mais instigantes momentos do neo-realismo de De Sica e Pasolini. É evidente que o cuscuz, que não chega nunca à mesa dos convidados na noite de inauguração do restaurante, é uma metáfora sobre a condição humana e a tenacidade de uma raça que não se entrega aos obstáculos.
A Itália deu ontem o segundo ar da graça, depois da desastrosa estréia de ''Nenhuma Qualidade aos Heróis'', de Paolo Franchi. É um outro filme sobre a família, aqui a tradicional cosa nostra siciliana. ''O Doce e o Amargo'', de Andréa Porporati, acompanha a ascensão, glória e desgraça de um mafioso ordinário. Trabalho correto, bem narrado, mas sem maior qualificação para aspirar premiações.
Mais duas entradas chinesas à caça do Leão de Ouro. ''Help Me Eros'', de Lee Kang-sheng, trata de solidão, relações frias mas sexualmente ardentes, fantasias eróticas. Já ''The Sun Also Rising'', de Jiang Wen, tem uma trama complexa que entrecruza quatro histórias, todas relacionadas com amores perdidos, recordações, sentimentos em estado de espera.
O americano independente Wes Anderson é outro a investigar a família e suas disfunções em ''The Darjeeling Limited'' (nome de um trem que existe na Índia), também em concurso. Três irmãos (Owen Wilson, Adrien Brody e Jason Schwartzman) que não se vêem há tempos se reencontram no tal trem para uma viagem de iluminação espiritual depois do funeral do pai. O destino é rever a mãe (Anjelica Huston), agora uma freira. Quem viu e se recorda de ''Os Tenembaum'' e ''A Vida Aquática de Steve Zissou'' sabe o que esperar desta insólita comédia 'on the railroad'. Owen Wilson, que há uma semana tentou o suicídio por conta da separação de Kate Hudson, foi o único ausente na coletiva aqui em Veneza.
Ontem foi dia de prestar tributo a Bob Dylan, e quem assina o filme é Todd Haynes (''Velvet Goldmine''), outro 'indie' americano na seleção competitiva. ''I'm Not There'' é uma original abordagem biográfica dos tempos, das vidas e da influência do compositor e cantor Boy Dylan. Haynes coloca Dylan (que autorizou o projeto) na pele de sete personagens vividos por sete atores, em sete segmentos, inclusive com Cate Blanchett travestida. Mais curioso do que efetivo, no entanto, o filme se beneficia obviamente da música de Dylan, que está em cada fotograma.

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