Não é pouca responsabilidade, logo em janeiro abrir a agenda cultural do país como um dos mais significativos eventos do setor audiovisual. Mas a Mostra de Cinema de Tiradentes, Minas Gerais - agora em sua décima edição iniciada no último fim de semana - não fez por menos e encarou esta tarefa a partir de um enfoque que a maioria dos mais de 100 festivais brasileiros ou desprezou ou simplesmente não quis assumir, absorvidos pelo duvidoso apelo do ''pólo turístico'', que sem dúvida projeta a cidade promotora, mas asfixia o viés cultural. Quando ele existe...
A Mostra de Tiradentes nasceu em 1998 já inteiramente voltada ao cinema nacional. E não competitiva - apenas um júri popular elege entre as centenas de selecionados os melhores longa e curta-metragens, além do melhor vídeo. Os quatro dias iniciais logo foram ampliados para nove, consequência da natural demanda dos próprios realizadores, que ao longo desta década sentiram mais e mais a possibilidade de consolidar um canal não apenas de concorridíssimas exibições publicas de suas obras - mas principalmente de fertilização do debate nacional em torno da filmografia brasileira. Em Tiradentes, as janelas para a reflexão em torno de nosso cinema parecem bem mais abertas do que em outras mostras.
Sessões públicas e debates sempre lotados, além de seminários, encontros da crítica, equipes e platéia, oficinas (só este ano são treze), fóruns de entidades representativas de segmentos da cinematografia do país, além de outras manifestações artísticas como exposições, apresentações teatrais, folclóricas de rua e shows populares - o elenco de atrações é vasto, multifacetado e, durante o período, transformador da feição da histórica cidade mineira com três séculos de vida. Ao todo, são 3.400 lugares em três espaços muito bem dotados: o Cine-Tenda, o Cine-Praça e o Cine-Teatro.
Desde sua quarta edição, em 2001, a Mostra de Tiradentes presta homenagens a personalidades do universo cinematográfico nacional a partir de um tema central. Assim, desfilaram grandes realizadores e intérpretes a partir de idéias como Mulheres em Cena, Cinema de Ator e Cinema de Autor, Heróis do Cotidiano do Cinema Brasileiro, Modos Narrativos do Cinema Brasileiro, O Primeiro Cinema e Livre Pensar.
Para esta edição de 2007, o tema escolhido foi emblemático e reflexivo sobre a década que passou, estes dez anos que fortaleceram o processo da retomada da produção e o consequente reencontro com o publico nas salas de exibição. A rubrica Vitalidade do Cinema Brasileiro resultou naturalmente ligada à pesquisa que a organização da Mostra de Tiradentes realizou há dois meses com 41 críticos nacionais da mídia impressa (jornais e revistas) sites e universidades. Os três filmes mais votados foram ''O Invasor'', de Beto Brant; ''Cidade de Deus'', de Fernando Meirelles; e ''Central do Brasil'', de Walter Salles.
Junto, elegeram-se também os atores da década, Lázaro Ramos e Matheus Natchergaele. De sexta passada até o próximo sábado, a 10 Mostra de Tiradentes terá exibido o número recorde de 219 realizações de ficção, documentário ou experimental em 55 sessões gratuitas - 26 longas (17 comercialmente inéditos no circuito nacional), 59 curtas e 134 vídeos. Um bem dotado flagrante do momento atual da produção brasileira, com suas inquietações temáticas e estéticas.

* O jornalista viajou a convite da organização da Mostra de Cinema de Tiradentes

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