CINEMA/FESTIVAL - Só produções inéditas
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quinta-feira, 27 de julho de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Vinte e um filmes na principal disputa, a do Leão de Ouro, e todos em première mundial, sem qualquer exibição prévia, comercial ou em mostras de qualquer espécie. Cópias diretamente dos laboratórios para as salas do complexo veneziano. Esta é a premissa de impacto na largada desta 63 Mostra Internazionale d'Arte Cinematografica, o Festival de Veneza, que acontecerá de 30 de agosto a 10 de setembro.
Mais importante, porém, é que do ponto de vista artístico a programação do evento, apresentada ontem durante coletiva em Roma, coloca os cinéfilos em ardente expectativa. A seleção de títulos anunciada é a princípio de nível inegavelmente superior àquela vista em Cannes há dois meses.
Deixando de lado a afirmação eufórica e tipicamente competitiva do diretor da mostra, o suíço (com ascendência brasileira ) Marco Muller, sobre este histórico ineditismo, o que se observa é o empenho em preservar o alto nível que Veneza ofereceu ano passado, quando títulos como ''Brokeback Mountain'' e ''Good Night and Good Luck'' saíram premiados do festival para uma carreira de triunfos pelo resto do mundo.
Na seção mais destacada, os filmes de ponta marcam dois retornos ilustres, o do francês Alain Resnais, 84 anos, e o holandês Paul Verhoeven, este nas últimas décadas absorvido por Hollywood mas ao que parece retomando sua trilha inicial como autor. Há também o Stephen Frears de ''Senhora Henderson Apresenta'' de volta com uma sátira política com a Rainha Elizabeth e o primeiro ministro Tony Blair como personagens interpretados por atores. Os italianos Gianni Amélio e Emanuele Crialese fazem as honras da casa na disputa pelos Leões. O único latino-americano em concurso é o mexicano Alfonso Cuarón, com ''Children of Men''. E há ainda filmes de Brian De Palma, Tsai Ling Liang e Benoit Jacquot.
Ao todo, 27 países, num total de 62 filmes, estão representados nas seções Venezia 63, Orizzonti, e Fuori Concorso. Nesta última, entre outros, a nova versão da ''Flauta Mágica'' de Mozart, dirigida por Kenneth Branagh, o drama ''WTC'', de Oliver Stone, o misterioso ''Inland Empire'', de David Lynch (homenageado com o Leão de Ouro pela carreira) e a esperada continuação de '' ''Belle de Jour'' segundo o olhar do quase centenário Manoel de Oliveira: ''Belle Toujours''. A participação dos Estados Unidos no total de filmes é a maior, 13 longas, o que desde já garante o ir e vir de muitas celebridades, mesmo com filmes não exatamente hollywoodianos. Itália e Japão vêm a seguir, com 10 e 6, respectivamente.
Na prestigiada e sempre muito fértil mostra ''Orizzonti'', dupla presença brasileira: ''Suely'', segundo filme de Karim Ainouz (''Madame Satã''), e ''El Cobrador'', de Paul Leduc, co-produção com México e Argentina. Nesta seção, também forte participação documental com sete títulos, entre eles ''When the Leeves Broke'', de Spike Lee.
Duas grandes retrospectivas vão homenagear os cinemas brasileiro e russo. No caso do Brasil, o reconhecimento é para um dos pais do Cinema Novo, Joaquim Pedro de Andrade, que ganhou mostra de seus principais títulos, todos restaurados graças aos esforços da família, especialmente da filha Alice Andrade. São seis longas e oito curtas, com destaque para o antológico ''Macunaíma'' e para o curta seminal ''Couro de Gato''. A mostra ''História Secreta do Cinema Russo'' abrange 19 filmes realizados entre 1936 e 1963, todos também restaurados.


