CINEMA/FESTIVAL - Sexo e política nas telas de Cannes
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segunda-feira, 22 de maio de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para a Folha 2 
Já em sua metade final, a edição 59 do Festival de Cannes não tinha mostrado até ontem nenhum título que tivesse entusiasmado incondicionalmente, aquele em torno do qual se pudesse pelo menos murmurar ''Palma de Ouro''. Como sempre, esperanças não faltam nos corações e mentes de quem viajou até aqui de pontos tão distantes, à espera de que pelo menos meia dúzia de títulos recompense o investimento. E se eles estão na seleção, devem aparecer nesses dias derradeiros. Até ontem, e mesmo com um final de semana carregado, apenas o ''Volver'' de Almodóvar e ''Il Caimano'' de Moretti podem ser catalogados como grandes filmes. E não por coincidência estão no reduzido time de diretores consagrados.
Mas se ainda faltam filmes mais convincentes, sobram celebridades, prontas e acabadas como Bruce Willis, La Deneuve e a turma dos ''X-Men 3'', entre muitas outras, e aqueles desconhecidos mas já ávidos aspirantes à gloria (15 minutos ou sempre mais). Todos os anos a organização divulga previamente nomes que desfilarão no tapete vermelho, mas durante a mostra a lista é infinitamente maior, com o incessante entra-e-sai de vips e suas baladas muito badaladas, transito mundano que abocanha boa parte do orçamento (oficial) deste ano 60 milhões de euros, cerca de R$ 180 milhões.
Sexo explícito na programação oficial há um bom tempo deixou de causar alvoroço ou longas filas. Mesmo assim, o americano ''Shortbus'', ''hors- concours'' de John Cameron Mitchell, deu o que falar. Comédia dramática e celebração GLS, é filme ambicioso que começa muito bem com seus personagens apanhados entre intensa atividade sexual e suas verborrágicas emoções convencionais, sendo mesmo mais inventivos e divertidos quando falam sobre e praticam sexo. Mitchell disse na coletiva que seu filme era Woody Allen com sexo. Errou. É sexo, sem Woody Allen.
E pretensão tem sido artigo comum por aqui. Na competição, ''Southland Tales'', além das ambições que o comprometem enquanto tentativa de épico visionário, é longo, confuso e auto-indulgente. Dirigida por Richard Kelly (''Johnny Darko''), é uma fantasia sobre fascismo americano, rebelião radical, terrorismo nuclear e apocalipse, localizada em 2008.
Dois outros concorrentes à Palma, muito próximos em seu formato e em seus respectivos enfoques existenciais, deixaram muito boa impressão. O turco ''Climates'', do formalmente rigoroso diretor Nuri Bilge Ceylan, faz a elegia do tédio e da impossibilidade da relação amorosa, em descendência direta de Michelangelo Antonioni. Já o finlandês ''Les Lumières de Faubourg'', na mesma linha de depuração formal e a caminho do minimalismo, faz a catarse da solidão com um personagem que carrega muito do vagabundo chapliniano. Ambos carregam chances de premiação a roteiro, direção e intérpretes.
Uma inglesa estreante, Andréa Arnold, quase se deu muito bem com um suspense intimista que caminha satisfatoriamente até o terço final, quando o roteiro adiciona ainda um terceiro filme onde cabiam apenas dois. É uma história de solidão contemporânea num universo de imagens (a personagem é operadora de câmeras de vigilância espalhadas por Glasgow), em estilo que lembra filmes de Soderbergh. É uma história de fascinação e de vingança entre a operadora e seu alvo preferencial e misterioso. E afinal, e desnecessariamente, é um melodrama tradicional em que a heroína se livra de velhos fantasmas. Uma pena, esta conclusão.
Ontem foi em parte jornada de muito barulho e muito pouca coesão dramática. Em nova mesura que o Festival de Cannes faz à grande industria americana, e em pré-estréia mundial, ''X-Men 3 - The Last Stand'' trouxe a Cannes os mutantes Hugh Jackman, Ian McKellen, Patrick Stewart, Halle Berry, Anna Paquin e o diretor Brett Ratner. O lançamento planetário é nesta sexta, inclusive no Brasil crítica em detalhes no dia do lançamento.
Provavelmente o lançamento mundial será em Veneza, no final de agosto. Mas ontem a imprensa pode conhecer com exclusividade, em imagens em HDV (vídeo de alta definição), quase 30 minutos iniciais de ''Word Trade Center'', apresentados pelo próprio diretor, Oliver Stone, e pelo diretor-artístico do Festival de Cannes, Thierry Fremaux. Nicolas Cage faz um dos bombeiros soterrados durante a queda das torres gêmeas. E no palco, ao lado de Stone, um trio respeitável: Charlie Sheen, Tom Berenguer e Willem Dafoe, comemorando com o diretor os 20 anos de ''Platoon'', exibido a seguir em cópia restaurada.
Mas se os mutantes X-Men não se deram bem, a nova comédia de Nanni Moretti se debruça sobre a aventura de Berlusconi, o líder recém-defenestrado pelas urnas e que comandou a Itália por doze anos. Cinco anos depois da Palma de Ouro por ''O Quarto do Filho'', Moretti trouxe ''Il Caimano''. Quem pensar num filme-palanque como o ''Fahrenheit 9/11'' de Michael Moore vai ter uma surpresa, porque Moretti como de hábito vai bem abaixo da superfície, e sempre que mergulha fundo faz alguns inventários políticos (e existenciais) tão interessantes quanto incômodos.
E ainda em águas políticas, um documentário de enorme atualidade, urgência e sentido prático-didático. É ''Uma Verdade Inconveniente'', dirigido por Davis Guggenheim. É uma aula, uma conferência ministrada pelo ex-vice presidente americano Al Gore sobe a crise mundial do meio ambiente.
Há por aqui também o que se pode chamar de ''efeito Moore''. É um filme de preferência americano, algo assim como um quente dossiê sócio-político. Quem assume este papel é ''Fast Food Nation'', ficção documental que ataca frontalmente a industria de alimentação fast food (as cadeias de hambúrgueres e afins) nos Estados Unidos. É, claro, uma parábola contra um sistema inumano de rentabilidade e lucro, envolvendo ainda mão de obra ilegal e barata (os mexicanos recém contrabandeados).
* O jornalista está em Cannes a convite da organização do festival.


