''Indigènes'' quer dizer ''nativos''. E são estes nativos os principais personagens de um batalhão de africanos árabes e negros das colônias francesas em combate, inicialmente no Norte da África, mais tarde já na França ocupada pelos alemães, entre 1942 e 1944. O diretor argelino Rachid Bouchareb vinha pensando nesta produção há dez anos, e nos últimos dois se debruçou sobre um roteiro que resultou muito consistente. O filme também é.
E mesmo o espectador mais distanciado deste segundo trauma histórico em importância na consciência dos franceses o primeiro, claro, é o colaboracionismo durante a Segunda Guerra se envolve emocionalmente com as imagens. Aqui ficcionalizadas, mas muito reais em sua origem. Assim, de certa forma, somos mais uma vez testemunhas de uma dessas sessões em que se lava roupa suja, muito comum nos festivais de Cannes e Veneza. Mas quando quem lava é expert e trabalha sabendo como tirar manchas mais profundas, é muito gratificante ver o resultado. O problema é que há certas sujeiras que são lavadas com a roupa ainda no corpo. Ou a seco. E aí dói.
Epopéia ao mesmo tempo eloquente e intimista, ''Indigènes'' foi recebido calorosamente tanto na sessão para a imprensa quanto na de gala (mas nesta faixa digamos, nobre, o ''Babel'' de Alejandro IÀarritu continua imbatível com seus quinze minutos de ''standing ovation'' ovacionado de pé). A intenção nítida deste quarto e mais ambicioso filme de Bouchareb é a de resgatar o papel destes combatentes no doloroso processo de libertação da França do jugo nazista.
''Indigènes'' trabalha em duas frentes. A de batalha propriamente dita, com muitas sequências de ação bélica em moldes clássicos bem realistas, sóbrios e convincentes. E a outra, envolvendo os combatentes argelinos, tunisianos, senegaleses, marroquinos. A narrativa acompanha o destino de quatro homens, mobilizados em 1943. Eles lutam inicialmente na Itália, depois na Provence e em seguida na região dos Vosges, antes de se encontrarem sozinhos para defender uma estratégica vila da Alsácia contra um batalhão de soldados alemães.
Bouchareb intercala as ações de combate com cenas de tensão crescente entre soldados africanos e superiores franceses. Questões raciais ou envolvendo submissão hierárquica, confusão de sentimentos, impasses sobre identidades, cumprimento do dever sem acesso a direitos, servir à pátria, subserviência, subjulgamento, honra, ética. Há diálogos fortes, e que ficam ainda mais candentes quando os protagonistas deixam de lado o francês e no acirramento das discussões falam árabe. Mas não há duvida: apesar deste detalhe, e de ser co-produção com bandeira franco-belga-argelina-marroquina, é filme 100 por cento francês.
Ontem na coletiva, estava o talentoso ensemble de atores de ''Indigènes'', que mereciam um prêmio coletivo porque neste coro ninguém destoa. E para a ''montée de marches'', Bourchareb fez questão de trazer veteranos daquele batalhão histórico que também ajudou a libertar Cannes e toda a região dos Alpes Marítimos da Provence. No créditos finais, as explicações sobre a outra luta deles, aquela reivindicatória de receber as pensões como ex-combatentes. O impasse somente foi solucionado em 2002.
Ainda na competição, o italiano ''L'Amico di Famiglia'', de Paolo Sorrentino, foi a segunda, última e plenamente dispensável entrada italiana na sessão principal de Cannes. É aquele momento incômodo, mas sempre presente mesmo nos grandes festivais, quando os jornalistas se perguntam o que levou a curadoria em conta para abrir espaço a um exemplar com tal fragilidade.

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