CINEMA/FESTIVAL - O documentário como espaço de resistência
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de novembro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Brasília, especial para a Folha 2 
Forte emoção reflexiva. Ou reflexão temperada pela emoção. Para provar que é possível razão e sentimento trabalharem a cabeça do espectador com efeciente harmonia, com saldo altamente positivo, o cineasta Evaldo Mocarzel mostrou na segunda noite da mostra competitiva do Festival de Brasília o documentário ''À Margem do Concreto''. O filme levantou a platéia do Cine Brasília, que aplaudiu com entusiasmo o realizador e sua equipe.
Segundo filme da tetralogia idealizada por Mocarzel sobre os problemas sociais que flagelam a megalópole o primeiro foi ''À Margem da Imagem'', sobre moradores de rua de São Paulo; ''À Margem do Lixo'' e ''À Margem do Consumo'' serão os próximos , ''À Margem do Concreto'' focaliza os sem-teto e os movimentos que reivindicam pela força da ocupação o direito constitucional de moradia.
Uma câmera sempre inquieta e dinâmica acompanha a atuação de várias lideranças que promovem atos de ocupação de imóveis abandonados na região central da capital paulista. São pessoas que estão promovendo justiça social por conta própria, orientando uma parcela grande da população submetida diariamente às condições infectas de albergues e cortiços controlados por atravessadores.
São estas lideranças algumas estão aqui em Brasília que não apenas enriquecem muito do que está na tela, por conta de suas experiências de vida e motivações, como também oferecem ao espectador os elementos necessários para uma compreensão bem mais ampla da questão. Líderes como Verônica, Gegê, Lizete, Valdir, Maria Inês e Sidney são exemplos comoventes de responsabilidade, desprendimento, dedicação, organização e estratégia.
No boom atual do cinema brasileiro de não-ficção, Mocarzel já ocupa lugar de destaque. Ele prossegue na trajetória que busca encarar de frente as problemáticas sociais, acreditando sempre na função transformadora do documentário. Em ''À Margem do Concreto'', quis (e conseguiu) deliberadamente humanizar a figura dos sem-tetos que querem resgatar sua dignidade brigando pela moradia. Demonizados pela mídia, que distorce os fatos e os classifica apenas como invasores baderneiros a serviço de programas partidários, os sem-teto encontraram no roteiro de Mocarzel a melhor arma para que se estabeleça um confronto realista com a sociedade.
No concorrido debate na manhã seguinte à exibição, o realizador reconheceu que o documentário não muda nada, mas ressaltou o potencial do gênero como espaço de resistência, sua capacidade de colocar a platéia ''como espectadora de si mesma'', despertando consciências e propondo alterar o recorte negativo da realidade. Neste sentido, ''À Margem do Concreto'' é filme com forte dose de ideologização, transitando deliberadamente à esquerda.
O jornalista viajou a convite da organização do 38º Festival de Cinema Brasília


