CINEMA/FESTIVAL - O cinema sempre engajado de Ken Loach
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quinta-feira, 18 de maio de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para a Folha 2 
Ao que tudo indica, a reação da crítica ao hors-concours ''O Código Da Vinci'' teve efeito retardado, talvez pelo entorpecimento causado pela estafa da viagem. O fato é que, de modo geral, a imprensa européia e grande parte da americana aqui presente foram mais rigorosas do que se esperava. Levaram excessivamente a sério a mística que se criou de maneira artificial em torno do filme. Le Monde, Liberatión, Figaro, L'Unité, Nice Matin, os principais jornais italianos, as revistas americanas Hollywood Repórter e Variety (edição Cannes): todos ressaltam e reprovam a ação claudicante, o excesso de discursos e revelações e a ausência de humor em maiores doses. Aliás, faltou também um pouquinho de bom humor à crítica.
Nada, no entanto, interferiu no brilho da megafesta oferecida pela Columbia no velho porto de Cannes, sob o signo de uma gigantesca pirâmide, logo após a exibição de gala que marcou quarta à noite o inicio oficial da mostra. O júri principal, aquele da competição, deu as caras na tradicional coletiva de apresentação. Presidido pelo diretor chinês Wong Kar-wai (''Amor à Flor da Pele''), é de longe o time de jurados mais glamourosos dos últimos anos, e um respeitável conjunto de egos também: os atores Tim Roth e Samuel L. Jackson, as atrizes Mônica Belluci, Helena Bonham Carter e Zhang Zyi, e os diretores Patrice Leconte, Lucrecia Martel e Elias Suleiman.
Sob os auspícios do velho e sempre bom realismo, que muitos consideravam morto ou na UTI por desuso, na melhor das hipóteses, foi dada a largada pela disputa desta 59 Palma de Ouro. Quem abriu a disputa foi o infatigável Ken Loach, um dos melhores autores do cinema britânico, portador da carteirinha dos melhores ''istas'', vale dizer, veterano socialista e humanista não só ideológica e artisticamente convicto, mas também portador de uma persistência que se confunde com devoção. Habitué de festivais internacionais, e permanente municiador de circuitos alternativos de exibição, Loach faz cinema à prova de falsificação. Isto é, quem o conhece identifica de cara a procedência e a legitimidade da entrega.
Agora mesmo, aqui em Cannes, ele está com ''The Wind that Shakes the Barley'', um desses libelos que ainda hoje fazem tremer o império britânico, aliás o alvo preferencial do cineasta. Denúncia de opressão política e injustiça social através de personagens muito próximos à realidade, o filme é um drama forte, sensível, nuançado que fala da Irlanda de 1920 no momento crucial do tratado de independência celebrado com os ingleses, ''aparente vitória'' irlandesa mas que na verdade marca o início de uma guerra civil que dividiu famílias e convulsionou o país.
Loach conta a história trágica de dois irmãos, que começam juntos na resistência armada mas terminam em lados opostos embora no fundo lutando ambos por uma Irlanda livre. Inspirado em fatos reais, ''The Wind that Shakes the Barley'' é nova oportunidade para Loach discutir, com profunda generosidade humana, uma série de pontos presentes em todos os seus filmes nascidos sob o signo da contestação. Pontos como luta de classe e interesses econômicos influindo nos conflitos. Como de hábito, muito aplaudido ao final da projeção e durante a superlotada coletiva.
Único asiático na disputa principal,''Summer Palace'' traz a assinatura de Lou Ye, um dos representantes do cinema underground chinês. Autor independente, ele construiu sua filmografia à margem do sistema, e por isso vem pagando preço alto: seus filmes estão sempre em colisão com a censura da China.
É o caso deste ''Palácio de Verão'', que chegou até aqui, mas sem nenhuma garantia de exibição na terra do cineasta. Em seu quarto longa, Lou Ye traça retrato impressionante de uma geração, e por extensão de um país, filmando a paixão destrutiva entre dois estudantes no contexto histórico daquela famosa praça Tiananmen, em 1989.
''Não é um filme político'', afirmou o cineasta entre suas belíssimas e ótimas atrizes, Hao Lei e Lingling Hu, durante a coletiva. ''Mas o caos que está nas ruas corresponde exatamente à desordem amorosa que eu quis mostrar. À época, a juventude ansiava por democracia, por liberdade sexual. Havia um verdadeiro desejo libertário no coração da Cidade Proibida. Nós pensávamos que tudo era possível, ainda que agora temos conhecimento de que tudo não passava de ilusão''.
Não há duvida, Lou Ye vai ter muito o que explicar às autoridades chinesas, não somente pelas observações políticas mas também pelas longas, frequentes e tórridas cenas de sexo.
* O jornalista está em Cannes a convite da organização do festival


