CINEMA/FESTIVAL - O balanço positivo de Tiradentes
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 31 de janeiro de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Os números finais da 10 Mostra de Cinema de Tiradentes, além de positivos e expressivos por si só, demonstram o acerto no formato e nas características pouco ortodoxas do evento, vale dizer, localizado na contramão de manifestações similares espalhadas pelo território brasileiro - no momento catalogadas em mais de uma centena.
Este tema, a propósito, esteve na pauta de mais um Fórum dos Festivais, evento paralelo em Tiradentes. E a julgar pelo que se ouviu dos responsáveis por festivais ali reunidos, a proliferação ininterrupta e indiscriminada de mostras de cinema no Brasil permanece envolta em densa névoa, sem explicações plausíveis ou justificativas mais convincentes.
De natureza não competitiva, e voltado primordialmente para o arejamento e a fertilização de idéias veiculadas gratuitamente junto ao público em generosas doses diárias de debates, seminários, fóruns e filmes - longas e curtas comercialmente inéditos -, este festival se beneficia ainda de uma bem planejada ''semana de nove dias'', tempo que pode ser classificado como ideal para o encaixe e ajuste das peças de uma engrenagem muito bem azeitada. E fator decisivo a pesar na balança do superávit geral é o entorno mágico da pequena Tiradentes, magnética com seu envolvente fio de memória patrimonial e sua delicada receptividade.
Em Tiradentes, a única medida de julgamento que vale é a do espectador que, aliás, invariavelmente lota todas as sessões. Seja na confortável sala do Centro Cultural Yves Alves, na nem tão confortável mas festiva grande tenda armada bem no centro urbano de Tiradentes, ou a céu aberto na praça, que ali, com toda a certeza, é mesmo do povo.
Assim, os troféus concedidos partem sempre e somente do júri popular, que este ano elegeu pelo voto direto o longa ''Noel, O Poeta da Vila'', do estreante Ricardo Van Steen, o curta cearense de animação ''Vida Maria'', de Marcio Ramos, e o vídeo carioca ''Mauro Shampoo - Jogador, Cabeleireiro e Homem'', de Paulo Fontenelle e Leonardo Lima.
A coordenação da Mostra de Tiradentes - leia-se Raquel Hallack e Quintino Vargas - apostou e ganhou. Em várias frentes, diga-se, mas o lance mais arrojado foi entregar a curadoria desta décima edição ao jornalista e crítico Cleber Eduardo, ex-revista Época e atualmente um dos editores da revista eletrônica Cinética (www.revistacinetica.com.br) Como coadjuvante na missão, e bem sintonizado, o também jornalista e cineasta Eduardo Valente, colaborador no mesmo site.
A escolha-convite, nos limites rigorosos da especificidade, resultou em densa mas balanceada programação. Uma programação contextualizada, sem concessões a veleidades mundanas e voltada exclusivamente às diversas intercorrências que hoje se colocam no labiríntico cinema brasileiro, problematizadas ao longo do tempo - mais precisamente da ultima década, não por coincidência a vertente temática escolhida este ano - ou emergentes a partir de diagnóstico de gestação recente.
Segundo a contabilidade oficial naturalmente eufórica, mas confiável da organização, fornecida pela assessoria de imprensa, 44 mil pessoas estiveram em Tiradentes durante a realização do evento. Diante das telas, 27 mil espectadores foram envolvidos pelas imagens de 219 títulos selecionados: 26 longas, 59 curtas e 134 vídeos. Foram 13 as oficinas oferecidas, totalizando 444 certificados a alunos selecionados entre 1004 inscritos. Pelas dezenas de aconchegantes pousadas espalhadas pela cidade passaram 465 realizadores, diretores, produtores, atores, críticos e estudiosos de cinema convidados pela organização. E todas as atividades, entre exibições, seminários, debates, encontros e mesas redondas foram assunto da cobertura jornalística de 113 jornalistas credenciados, representando 64 veículos de cinco estados.
É claro que um evento como este, nascido há uma década e destinado a permanecer, alteraria a feição da cidade-sede. Segundo dados da Secretaria de Turismo, Tiradentes vem se beneficiando ininterruptamente ao longo desses anos. Outras manifestações culturais surgiram no rastro da mostra de cinema, transformando positivamente a infra-estrutura deste adorável município com pouco mais de três mil habitantes e que comemorou 298 anos de fundação no dia ultimo dia 19.
* O jornalista viajou a convite da organização da Mostra de Cinema de Tiradentes.


