CINEMA/FESTIVAL - Incidentes na primeira noite latina em Gramado
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terça-feira, 14 de agosto de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Gramado, especial para a Folha2 
Festivais de cinema também têm lá seus problemas, apesar do necessário e cuidadoso planejamento para que as coisas funcionem como engrenagem bem azeitada. Às vezes a conjunção astral conspira contra o bom andamento, a normalidade e o profissionalismo, e então acontece uma noite marcada por incidentes, como anteontem aqui no 35º Festival de Gramado.
No primeiro deles, logo na abertura do programa, que incluía dois longas metragens, um latino-americano e outro brasileiro, a mestre de cerimônias, Andréa Buzzato, anunciou que a cópia em 35mm do documentário boliviano ''Cocalero'' não tinha chegado a tempo, e que seria projetada a versão em DVD recebida anteriormente para avaliação da comissão de seleção. Em off, corria a informação de que o diretor do filme, Alejandro Landes, teria despachado a cópia tarde demais, e que ela estaria retida no Rio por autoridades alfandegárias.
O resultado na tela foi desastroso, apesar da boa vontade em entregar uma solução paliativa emergencial. O equipamento multimídia do Palácio dos Festivais quando muito dá conta de mostrar tosca e rapidamente a publicidade dos patrocinadores da mostra, mas, para um longa de 94 minutos, em competição, francamente...
E na continuação do programa, o segundo mal-estar da jornada. A ficção ''Olho de Boi'' já ia adiantada na tela quando a projeção foi interrompida aos gritos pelo diretor Hermano Penna, invocando ''desrespeito'' e ''total falta de condições para o autor de cinema no Brasil''. Embora justificada a ira do cineasta, o estilo over-operístico da intervenção é que se questiona ainda hoje nos bastidores. Ao que tudo indica por descuido do operador de imagem, a ''janela'' do projetor, que recorta e emoldura a imagem na tela, não era a correta, reduzindo o quadro e, por conseguinte, o campo de visão do espectador. Trocado o dispositivo, a projeção prosseguiu normalmente até o final.
Abstraído o evidente prejuízo com a perda de qualidade da imagem documental, ''Cocalero'' sobrevive como sugestivo documentário sobre um dos mais surpreendentes casos na política recente da América Latina. O filme de Alejandro Landes - nascido no Brasil, criado no Equador, educado nos Estados Unidos e radicado na Argentina - dirige seu principal foco para Evo Morales, primeiro indígena a ocupar a presidência da Bolívia.
Landes chegou a La Paz 80 dias antes das eleições para acompanhar Evo durante a modesta campanha eleitoral que, apesar da falta de recursos, obteve repercussão sem precedentes entre os trabalhadores dos campos de coca. O então candidato fechou posição contra a política da ''coca zero'' defendida pelos Estados Unidos, e com esta bandeira pela manutenção do livre cultivo da planta acabou obtendo o índice recorde de 54 por cento de votos que o levou à presidência.
O que o filme mostra em detalhes é o ir e vir de Evo, principalmente nos últimos dias de campanha. Traça um retrato quase íntimo deste personagem fora dos padrões, intuitivo, rápido nos reflexos, apegado às raízes; alguém com ângulos obscuros e contradições que só o tempo na presidência vai dizer se são ou não adequadas e/ou resolvíveis. É certo que o diretor Landes assistiu com fascinação ao documentário de João Moreira Salles sobre Lula, o ''Entreatos'', e desta influência retirou a ênfase na espontaneidade popular (e ingenuamente populista) do candidato.
Há dois momentos que parecem diretamente transplantados do documentário brasileiro: Evo no avião e cortando o cabelo, quando deixa escapar um toque de vaidade. Mas ao final de ''Cocalero'' fica a impressão de que o fascínio pelo protagonista impediu um olhar mais profundo.
''Olho de Boi'' é drama regionalista com espectro universal. Na verdade, o filme é a livre adaptação da tragédia de Édipo Rei para os domínios do sertão mais profundo. Algo assim como Sófocles encontra e dialoga com Guimarães Rosa. Dois vaqueiros se embrenham na paisagem a um só tempo tortuosa e exuberante. O objetivo é uma tocaia. Aos poucos a trama vai se revelando.
O diretor Hermano Penna gosta mesmo de um bom duelo verbal com viés filosófico e desenlace na rispidez da ação física - é dele o ótimo ''Sargento Getúlio'', multipremiado em Gramado em 1983 e com o qual o filme mantém estreitas relações. Mas a despeito da excelência da dupla central de atores (Genézio de Barros e Gustavo Machado), ''Olho de Boi'' parece transbordar em suas pretensões e não caber na tela. Talvez em formato de peça e confinada em um palco a dramaturgia fosse bem mais verossímil.
Hoje, o filme londrinense ''Satori Uso'', do cineasta Rodrigo Grota, será apresentado dentro da Mostra Competitiva de Curtas-Metragens.
* O jornalista está em Gramado a convite da organização do festival


