CINEMA/FESTIVAL - GRAMADO abriu com discreta qualidade
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segunda-feira, 13 de agosto de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Gramado, especial para a Folha 
Durou pouco mais de meia-hora, mas foi o suficiente para emocionar a multidão que se comprimiu sob a Rua Coberta, no centro da cidade. O concerto da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, regido por Isaac Karabitchevsky, abriu no final da tarde de domingo o 35º Festival de Gramado. Somente a ordem dos fatores é que pode ser questionada, quanto ao aspecto utilitário do protocolo.
Os discursos - presidente do festival, secretária estadual de cultura e prefeito, nesta ordem - vieram depois da apresentação da Ospa, provocando sensível dispersão. Que só não foi maior porque pairou no ar, além da preciosa sonoridade do miniconcerto, também a dúvida quanto à volta do maestro e seus bravos instrumentistas. Que afinal retornaram para fechar a pauta com o hino do Rio Grande do Sul, cantado em massa pelo grande coral formado pelo público - a propósito, alguém aí sabe de cor o hino do Paraná?
Seguindo o cronograma, a segunda e última parte da abertura ficou por conta daquilo que realmente conta num festival de cinema: filmes. E foram dois brasileiros a iniciar a mostra competitiva da categoria de longas metragens nacionais. É complicada, a classificação de ''Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais''. É um documentário, e ao mesmo tempo não é.
É porque utiliza farto material de arquivo sobre o cinema realizado em Minas Gerais por cinco diretores durante a ditadura militar, final dos 60 e toda a década de 1970, incluído neste quinteto o diretor Carlos Alberto Prates Correa, o Castelar desta espécie de crônica indefinível. E não é porque não se trata da visão documentarista mais convencional, aquela que lida com a cronologia rígida e restaura a memória de tempos e fatos somente através de material de arquivo e entrevistas.
Extremamente pessoal, o tom de certa forma arbitrário adotado por Prates Correa - afastado do cinema desde ''Noites do Sertão'', de 83 - é de fabulação, quase de viagem onírica e de liberdade poética mais ou menos à moda felliniana. Ou seria ainda um irônico acerto de contas com este tumultuado passado recente que negou possibilidades de sobrevida - e teria antecipado as mortes - das instigantes carreiras daqueles cineastas instigantes ? Nenhuma duvida, no entanto, de que se trata, com absoluta certeza, de um filme para cinéfilos, o que circunscreve e muito sua fruição e circulação. Vale dizer, fora dos domínios de festivais, sua distribuição e consequente veiculação comercial será praticamente nenhuma.
Diante desta aridez, o drama gaúcho que veio a seguir, ''Valsa para Bruno Stein'' não teve maiores dificuldades em estabelecer laços afetivos com a platéia do Palácio dos Festivais. E como sempre ocorre quando pratas da casa entram na disputa em Gramado, seja com longas ou curtas, é claro que cresce a empatia, especialmente quando a produção coloca na apresentação de palco toda a equipe, o que significa toda mesmo - algumas dezenas de pessoas. Neste caso, liderados por Walmor Chagas e Ingra Liberato.
E é muito por causa desta dupla de atores que o filme consegue seus melhores resultados, embora esteja longe de ser plenamente satisfatório. Ele é o Bruno do título, alemão septuagenário endurecido pela rigidez de uma educação religiosa. Ela é a nora Valéria, muito mais jovem, irrealizada no casamento e em conflito com as filhas. Com a chegada de um novo empregado para trabalhar na olaria de Bruno, as coisas vão tomando rumos mais definidos. A atração reprimida entre Bruno e Valeria terá afinal um desenlace.
Se levarmos em conta que o diretor Paulo Nascimento realizou na estréia o inqualificável ''Diário de Um Novo Mundo'', visto há dois anos aqui mesmo em Gramado, o aparecimento deste segundo longa deve ser saudado como uma espécie de ressurreição. Walmor Chagas e Ingra Liberato estão muito bem, ele atormentado por sua proibida paixão outonal, ela como a balzaquiana em busca de um novo tempo.
A primeira mudança importante na fórmula do festival surtiu os efeitos esperados. Sem os curtas-metragens (deslocados para a tarde), a sessão iniciada às sete e meia e encerrada pouco depois das onze surtiu os esperados efeitos benéficos. Com a jornada agora em padrões civilizados, o público - e especialmente a imprensa - pode escolher onde e o que jantar em clima de confraria. Alimentados como justos e pacificados, todos puderam dormir mais cedo. E bem.
* O jornalista está em Gramado a convite da organização do festival


