Governador, prefeito, secretários de Estado e municipais, deputados, diretores do evento, cineastas, atores e atrizes de alcance nacional e estadual, Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, público da cidade e cercanias. Às seis da tarde de segunda-feira, sem o esperado rigor do inverno serrano e com os discursos habituais embalados por um repertório sinfônico-cinematográfico, foi oficialmente aberto o 31º Festival de Gramado - Cinema Brasileiro e Latino. A boa novidade foi mesmo a solenidade, não apenas antecipada em hora e meia mas este ano deslocada para a rua coberta em frente do Palácio dos Festivais. A mudança não buscou apenas democratizar a abertura da mostra com a participação ao vivo do público que, todos os anos, acompanha espremido a programação de palco num telão burocrático na entrada do cinema. A intenção foi também deixar a sessão inaugural por conta daquilo que afinal interessa e é a razão de fato de um festival de cinema, isto é, filmes.
E eles vieram, apresentados um a um pela dupla mestre de cerimônias, o gaúcho Werner Schunemann e a atriz Bete Mendes. A qualidade geral fez justiça à quantidade - três curtas e dois longas -, embora a obra-prima da Espanha, sozinha, já seria suficiente para dar conta do recado, compensando e muito um estafante dia de viagem. Mas o Brasil também não comprometeu.
Abrindo a competição de curtas nacionais em 35mm, o cearense ''Águas de Romanza'', de Gláucia Soares e Patrícia Baía, injeta lirismo no drama da seca que assola o sertão nordestino. A menina Romanza sonha em conhecer a chuva e os únicos que podem ajudá-la são a avó velha e doente e um caixeiro viajante. Já o carioca ''Castanho'', de Eduardo Valente, que saiu de Cannes este ano com uma menção honrosa em premiação paralela para o cinema latino, é uma divertida comédia meio kitsch, meio nonsense, meio machista, meio feminista, sobre o possível e o impossível para satisfazer a fórmula ''ama-te a ti mesmo e seja feliz, não importa como''. Mas afinal não passa de um filme-anedota. O terceiro curta da noite, a animação ''Terminal'', impressiona pelo traço expressionista do arquiteto e designer gráfico Leo Cadaval. Uma espécie de parábola sombria sobre a relação com a morte, valorizada pela concepção animada de alguns dos pontos mais característicos da cidade de São Paulo.
Longa do paulista Ricardo Elias, ''De Passagem'' é uma história sobre a amizade entre três crianças da periferia de São Paulo, que se tornam adultos e seguem caminhos diferentes. De certa forma, o longa pode ser incluído na recente rota temática da retomada do cinema brasileiro, ao lado de ''O Invasor'', ''Cidade de Deus'', ''Carandiru'', ''O Homem do Ano'' e ''Madame Satã''. Mas o estreante Elias, em parceria com o co-roteirista Cláudio Yosida, demonstra originalidade e habilidade suficientes para não cometer mimetismos que poderiam comprometer o filme com lugares comuns sobre a violência urbana como tema recorrente. Os três meninos, mais tarde três adultos, cada um à sua maneira, procuram romper com as origens pobres deste meio marginal. São separados pelas circunstâncias, mas se reencontram numa jornada em busca do corpo de um deles. A extensa periferia da cidade da cidade de São Paulo, com sua impressionante complexidade de geografia física e recorte humano, aparece como um quarto personagem e metáfora para um rito de passagem temporão. O bom trabalho com atores, a fotografia prática e objetiva e uma direção de arte funcional complementam um quadro geral favorável.
Mas o deslumbramento da noite de abertura do festival correu por conta das ''Segundas-Feiras ao Sol'', tradução literal e título definitivo para lançamento no Brasil de ''Los Lunes al Sol'', com distribuição garantida pela Pandora. Do coração das trevas da emergente era globalizada, o jovem (35) Fernando Leon de Aranoa retira um dos mais pungentes, mais belos filmes deste ano. E com todo o respeito que merecem Almodóvar e seu brilhante ''Fale com Ela'', estavam certos os espanhóis quando elegeram ''Los Lunes...'' para representar oficialmente o país na corrida ao Oscar de melhor estrangeiro.
O filme examina as vidas de um grupo de desempregados no norte da Espanha, despedidos depois que os estaleiros onde trabalhavam é fechado anos antes em meio a violentos protestos. Os personagens principais têm a amizade posta à prova no dia-a-dia em que inveja e ressentimentos são o alimento do ócio forçado. Lino (José Angel Egido), já na meia idade, saí todos os dias de terno e gravata para entrevistas em escritórios que acabam escolhendo candidatos mais jovens. Rico (Joaquin Climent) aproveitou o dinheiro da indenização e abriu um bar, ponto de encontro diário de todos eles. Reina (Enrique Villen) conseguiu um trabalho como segurança em um estádio de futebol. Amador (Celso Bugallo) sobrevive mergulhado em álcool. José (Luis Tosar) se sente humilhado porque a mulher, Ana (Nieve Medina), é quem sustenta a casa, enquanto o casamento parece naufragar.
Aranoa tempera seu roteiro com doses frequentes de humor, aquele humor quase cruel capaz de, por alguns momentos, amenizar a crueza de uma situação degradante. Seu ponto de vista é colocado claramente logo de início - o desemprego é causa absoluta de desumanização - e reiterado ao longo do filme, às vezes com humor, às vezes com ira. Este compassado, episódico filme, tem em Javier Bardem, que interpreta Santa, o elemento que de maneira poderosa se impõe como o mais irado, o único entre todos os amigos que sabe o peso exato da tragédia que se abateu sobre suas vidas. Um trabalho estupendo em uma obra que permite conceituar com rara precisão o que significa humanismo.

mockup