CINEMA/FESTIVAL - Festival de Brasília justifica fama política
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sexta-feira, 24 de novembro de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Brasília, especial para a Folha 2 
É um evento que em quatro décadas se impôs como irrequieto guia de transformações na arte de fazer cinema no País. Surgido naquele momento em que era imposta a ditadura militar no Brasil - esta última, a partir do golpe de 31 de março de 1964 -, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro sempre foi modelo de inquietação. Mas além de simplesmente inquietar-se, partiu para o bom combate, para a resistência ao arbítrio, para a denúncia das atrocidades. Por isto ficou de castigo, ganhou uma quarentena, uma ''suspensão'' por alguns anos, para imediatamente em seguida retomar a mesma bandeira, a do cinema menos glamour e mais politizado.
Esta 39 edição da mais velha mostra brasileira de filmes não deverá ser diferente. Trabalhando com material inteiramente inédito, a comissão organizadora selecionou um conjunto de títulos que revelam as várias faces do Brasil socialmente irresolvido. Já na abertura, fora de concurso, o docudrama ''O Romance do Vaqueiro Voador'', de Manfredo Caldas, buscou refletir o universo mítico do nordestino que se transformou em candango e veio protagonizar o lado trágico da epopéia da construção da nova capital brasileira.
E ontem começou a exibição competitiva dos 14 curtas e 6 longas metragens em 35mm. O curta inaugural, ''Noite de Sexta, Manhã de Sábado'', é com certeza uma das raras exceções a partir de ficção não-política - embora como filme sobre o amor também se deixe abordar pelo viés político. Realizado pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho, é um narrativa lírica - com assumida e bem resolvida influência da nouvelle vague - sobre relação amorosa entre duas pessoas separados por distancia oceânica. Realizado com delicadeza e originalidade, o curta é outro atestado do crescimento autoral de Kleber Mendonça, ativo crítico de cinema em Recife e com muitos prêmios acumulados com seus dois curtas precedentes, ''Vinil Verde'' e ''Eletrodoméstica''.
Em abordagem mais convencional, mas eficiente, o paulistano Mauricio Kinoshita mostrou ''Hibakusha: Herdeiros Atômicos no Brasil''. Em meia dúzia de entrevistas, o filme localiza os sobreviventes do holocausto (aqui a palavra estranhamente parece fazer mais sentido) atômico em Hiroshima e Nagasaki, reunidos em São Paulo numa associação de cerca de 140 pessoas. Em trágicos depoimentos diretos, sem rodeios a não ser a barreira da língua, estes descendentes da bomba atômica falam sobre aqueles momentos terríveis de drama e dor, e transformam seus testemunhos em forte argumentação a favor da paz.
O jornalista e realizador Evaldo Mocarzel vem se especializado na narrativa documental. Ele sempre flerta com a polêmica, e seus filmes só não ganham ainda maior e mais controvertida repercussão porque não passam no chamado circuitão, ficando adstrito a guetos da alternatividade exibidora. São dele os títulos ''À Margem da Imagem'', ''À Margem do Concreto'', ''Mensageiras da Luz - Parteiras da Amazônia'' e ''Do Luto à Luta''.
''Jardim Ângela'', que entrou na competição brasiliense porque o longa ''Cleópatra'', de Julio Bressane, não ficou pronto a tempo, é um filme estranhamente complexo. E que carrega em si o germe da contradição. Por isto é estimulante, embora sempre discutível.
''Jardim Ângela'' é fruto de uma experiência meio ao acaso, como bem reconhece Mocarzel. É um documentário, uma espécie de TCC realizado em conjunto com jovens aquele bairro reconhecidamente com fama de campeão de violência e do tráfico e consumo de drogas. Aproveitando a experiência de uma oficina de cinema ministrada pela Associação Cultural Kinoforum, que há seis anos promove a inclusão social através do audiovisual na periferia de São Paulo, o diretor procurou discutir, via cinema feito pelos próprios alunos, a visão de mundo desses jovens que consideram distorcida a imagem que mídia - especialmente a televisiva - faz deles.
Assim, o que espectador tem na tela é um filme que os alunos da oficina estão realizando, uma história sobre alcoolismo. E então um outro garoto da região, Washington, entra no circuito e se impõe com forte personalidade, liderando as ações das duas equipes. Ele passa a comandar a narrativa e dar rumos ao filme de ficção que está sendo feito dentro do documentário. Aparentemente reintegrado pela ''segunda chance'', entre shakespeariano e maquiavélico ele assume o comando, e das duas narrativas.
Manipulador, mitômano, Washington acaba por acentuar, com o final que impõe à história de ficção dentro do documentário, toda a questão da violência. A violência tão combatida e modelo a ser execrado ganha então uma glamurização apologética. Nem mesmo o final antagônico do ''bem'', proposto por duas garotas que trabalham na produção, consegue disfarçar as reais intenções manipuladoras do rapaz. Que, a propósito, não veio ao festival porque está se recuperando de ferimentos graves que sofreu num churrasco de acerto de contas com traficantes, e porque também está jurado de morte pela polícia. Além de denunciado em processo que pode levá-lo por um bom tempo à cadeia.


