O Festival de Gramado é um dos mais antigos do país. Nasceu em 1972, no vácuo momentâneo causado pela mordaça de chumbo ditatorial imposta ao de Brasília, mais velho alguns anos. Hoje são quase cem, os festivais de cinema e vídeo no Brasil. Ocuparam um espaço de ponta de lança turística, em primeiro lugar, e só depois é que vieram as preocupações artísticas. Se é que vieram de fato. Brasília e Gramado acusaram os efeitos desta concorrência, meio desenfreada, ambiciosa, antropofágica, vitrine política. Mas Brasília tem perfil de sobriedade definido, cabeça feita e se aguentou bem. Já Gramado...
Depois da ''latinização'' no início da década passada, agora chega o momento de vôo mais ambicioso. Em até três anos, segundo a comissão executiva, o Festival de Gramado será internacional. Isto significa mais dias de mostra, aporte de recursos mais volumoso, maior abertura de horizontes - artísticos, principalmente - e um sensível ''up grade'' no recorte profissional da mostra. A infra-estrutura da cidade comporta com sobras, mas é sem dúvida um desafio, devolver ao festival o prestígio abalado nos últimos tempos pelo excesso de mundanismo e por recentes denúncias de irregularidades - há quinze dias, em nota oficial, o presidente do Festival, Enoir Zorzanello, se afastou do cargo.
O assunto já está nas rodas de cinema e vai correr solto e quente nos bastidores desta 34 edição que começa amanhã. Até sábado, a pequena megalópole de eventos em que se transformou Gramado vai, no mínimo, triplicar sua população de 32 mil habitantes.
Ao todo, 52 filmes, entre longas brasileiros e latinos em 35mm, curtas brasileiros em 35 e 16mm, todos em competição, e mais os fora de concurso serão exibidos diariamente a partir das sete da noite no Palácio dos Festivais. Não há mais exigência de ineditismo para os longas nacionais, exceção a lançamentos no Rio Grande do Sul. Entre os longas latinos, o destaque é o mexicano ''El Violin'', selecionado para o recente Festival de Cannes.
Pelo menos um dos longas traz o selo da polêmica: a animação gaúcha ''Wood & Stock'', de Otto Guerra, elogiado por público e crítica do recente Anima Mundi, estranhamente não foi selecionado para a mostra competitiva e vai ser visto em horário alternativo. Outra controvérsia foi a tentativa de deslocar os curtas da programação noturna para as tardes, mas a reação imediata da categoria manteve a tradição de mais de três décadas.
Recheando esta programação de imagens, a curadoria programou diversas homenagens especiais. Antonio Fagundes, que estará no palco do Ouro Verde no fim de semana por conta da peça ''As Mulheres da Minha Vida'', passa antes por Gramado e recebe o Troféu Oscarito pela carreira. E o cineasta Vladimir Carvalho, papa do documentarismo brasileiro, leva o Troféu Abelin. O veterano Nelson Pereira dos Santos, primeiro intelectual do cinema a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, será homenageado na noite de encerramento.
O júri de longas brasileiros, anunciado ontem, traz os nomes do diretor mexicano Jorge Sanchez e dos brasileiros Alain Fresnot, Tizuka Yamasaki, Ademar Oliveira e Rodolfo Nani. Os jurados para os longas latinos são Ruy Guerra, Jorge Jellinek (Uruguai), Jorge Rufinelli (EUA), Roman Chalbaud (Venezuela) e Sergio Silva.


LONGAS BRASILEIROS EM COMPETIÇÃO
- Anjos do Sol, de Rudi Lagemann
- Atos dos Homens, de Kiko Goifman
- Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim
- Serras da Desordem, de Andréa Tonacci
- Sonhos e Desejos, de Marcelo Santiago

LONGAS LATINOS EM COMPETIÇÃO
- Di Buen Dia a Papa, de Fernando Vargas (Bolívia/Argentina/Cuba)
- El Método, de Marcelo Piñeyro (Argentina/Espanha)
- Quatro Mujeres Delcalzas, de Santiago Loza (Argentina)
- Mezcal, de Ignazio Ortiz Cruz (México)
- El Violin, de Francisco Vargas(México)

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