A temperatura já andou na marca dos 33 graus, o que não dá para decretar estado de calamidade, mas todo o comércio gramadense anda à beira de um ataque de nervos. Os pratos de resistência sopas, fondues, massas, chocolates foram banidos do cardápio. Abaixo o vinho, viva a cerveja. A última esperança é que o quadro meteorológico se altere hoje, mas dificilmente a asssociação comercial vai deixar de contabilizar grandes prejuízos numa semana tradicionalmente de intensa movimentação financeira. Enquanto isso, a população da cidade praticamente dobra, com a chegada diária de centenas de convidados e turistas de todas as partes, pelo menos garantindo a plena ocupação da rede hoteleira, hoje com cerca de 12 mil leitos.
A mostra competitiva terminou ontem à noite com a exibição dos últimos filmes em competição. Entre os longas brasileiros, a não ser que o paranaense ''O Preço da Paz'' (projetado ontem à noite no último horário) seja obra de exceção, é provável que o júri se incline na direção de ''Apolônio Brasil'', simpática comédia musical de Hugo Carvana e que deve levar com tranquilidade o prêmio do júri popular.
Entre os latinos, é praticamente impossível que o Kikito fuja das mãos de ''Los Lunes ao Sol'' ou de ''Lugares Comuns', embora México e Uruguai sejam candidatos de respeito. E quanto aos curtas, há várias opções dignas para a comissão julgadora. É só não inventar. E hoje à tarde, depois da última sessão de debates, também a crítica se reúne para escolher os seus melhores filmes.
No sobe-e-desce da qualidade, o fôlego dos curtas-metragens andou rarefeito, enquanto os longas registraram sensível recuperação depois de um meio de semana pouco inspirado. Na quarta noite da mostra competitiva, entre os curtas salvou-se o baiano ''Hansen Baia'', belo documentário poético de Joel de Almeida sobre vida e obra do xilogravurista alemão Karl-Heinz Hansen, nome de ponta no expressionismo do século 20 que viveu e trabalhou boa parte da vida em Salvador. Já o carioca ''Jonas'', de Allan Sieber, e o gaúcho ''Pesadelo'', de Tomás Creus, desabam ruidosamente ao tentar mostrar situações insólitas ou bizarras, e pelo menos o segundo título coloca em xeque critérios da comissão de seleção.
Depois do deslize lusitano de ''A Selva'', a mostra latina de longas voltou a demonstrar vigor com o mexicano ''Cuentos de Hadas para Dormir Cocrodilos'', de Ignacio Ortiz. Capaz de causar estranhamento e até desconforto no espectador mais acomodado e menos alerta, a história original de Ortiz mexe com as raízes mais fundas da ''mexicanidad''. De uma forma telúrica, crua e fatalista, aqui e ali flertando com o realismo fantástico, ''Cuentos de Hadas...'' narra a história de um homem que não consegue dormir e sai à procura de suas origens familiares para tentar a própria salvação e a do filho autista. Mergulhando no passado, ele conhece os acontecimentos históricos, sociais e familiares que desenharam o quadro cultural que determinou a tragédia das gerações anteriores, modificando não apenas sua vida, mas a de seus descendentes. Um filme sobre atavismo e destino, ''Cuentos de Hadas...'' se nutre, entre outras influências, do universo de imagens impiedosas de Arturo Ripstein, a incomoda consciência crítica do México.
E o Brasil subiu no ranking. Simpático, divertido, às vezes irregular, ''Apolônio Brasil'', segundo o diretor Hugo Carvana, é a homenagem que ele sempre quis fazer à chanchada brasileira, gênero que o próprio Carvana frequentou como ator no início da carreira, anos 50. Na clássica linha investigativa do flash-back conduzido por pessoas que, de forma mais ou menos intensa, participaram da vida do personagem agora falecido, a história reconstitui a trajetória de Apolônio Brasil, artista talentoso e de personalidade magnética que brilhou na noite do Rio como pianista e cantor.
Depois da infância no orfanato, de onde sai com lembranças felizes, Apolônio tem uma esfuziante trajetória que passa pela performance como cantor cego de rua, prosseguindo como pianista de bordel, animador de programa de auditório e figurante desastrado em chanchada cinematográfica, antes de chegar à boate, seu habitat por excelência. Quando Apolônio morre, um cientista milionário pega o cérebro do artista para tentar uma explicação para sua alegria e talento, além de convocar os amigos mais chegados do personagem para depoimentos que ajudem na investigação.
Há deslizes no roteiro de Mauro Wilson e algumas desigualdades no elenco, mas de modo geral ''Apolônio Brasil'' é divertido, não compromete a folha de bons serviços prestados por Carvana ao cinema brasileiro e, principalmente, não é frustrado enquanto musical. No gênero, nada hollywoodiano, mas oferecendo algumas coreografias bem corretinhas. Na trilha musical de autoria e organizada por David Tygel, pérolas da musica popular brasileira na ótima voz de Marco Nannini, um carismático Apolônio Brasil.

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