Exatos dois anos depois de ganhar aqui o Leão de Ouro de melhor filme com seus cowboys apaixonados, entre muitos outros prêmios que vieram a seguir, o diretor Ang Lee, taiwanês radicado nos EUA, desembarca em Veneza com outro belo e grave filme sobre emoções e sexo (e política). ''Lust, Caution'' marca o retorno do diretor à China e a seu idioma de berço - e com capital americano como reforço. É uma obra de arte cinematográfica, sem dúvida, longa, densa, detalhista, cuidadosamente dirigida, atenta aos mínimos detalhes de reconstituição de época e às implicações humanas, sociais e políticas. O tempero mais pronunciado, no entanto, é o sexo.
Ambientada em Shangai sob domínio japonês, anos 1940, a história é baseada em conto (apenas 28 páginas) da escritora Eileen Chang/Zhang Ailing, considerada no Ocidente a versão contemporânea de Jane Austen, no sentido de ser uma atenta cronista de costumes da China como a inglesa foi de seu país. Como sempre ocorre quando há ocupação militar em qualquer país por outro, há os nativos que colaboram com o invasor, e há a tradicional resistência underground.
Na trama, o colaborador é o senhor Yee (Tony Leung, ator fetiche de Wong Kar-wai), que nas sombras usufrui poder e benefícios materiais. Como parte vital do plano para matar o homem, a resistência instrui a jovem e tímida Wong Chia Chi (a estreante Tang Wei) para se tornar amante dele. E é esta relação a base da dramaturgia que Lee exercita simultaneamente com classe e ousadia, com estudada explicitude, tanto física quanto psicológica. Há sequências de altíssima efervescência sexual, essenciais para Lee chegar e em alguns momentos ultrapassar os limites mais distantes das paixões humanas. Há ecos mais ou menos evidentes da desesperança de ''Último Tango'' de Bertolucci e da ascética morbidez sexual do Nagisa Oshima de ''O Império dos Sentidos''.
Lee reconhece que é um tema, se não explosivo, pelo menos muito delicado. Quanto à ação da censura chinesa, sobre o sexo forte nas imagens e a questão política do colaboracionismo, ele diplomaticamente disse que o filme fala por si mesmo.
Fora de competição, outro filme causou muita agitação. Não pelas virtudes, mas pela espécie de niilismo que acometeu o diretor japonês Takeshi Kitano, ao que parece irreversivelmente. Depois do confuso ''Takeshi's'', exibido aqui mesmo há dois anos, ele reaparece e radicaliza uma já desenhada crise de criatividade. Em ''Kantoku Banzai!'' (Glory to the Filmmaker), estranhamente incluído na seletiva seção ''Mestres'', o consagrado diretor de ''Hana-bi'' (Leão de Ouro em 1997) assina uma espécie de testamento de uma filmografia que afirma não mais o interessar.
O filme, auto-centrado, começa até de maneira curiosa, um inventário de gêneros cinematográficos que ele visitou um dia. E anuncia a falência de todos eles. Mas ao lado de um boneco que surge como seu alter ego, Kitano envereda por uma trilha de citações cult (Ozu), pop e trash, nonsenses, paródias de sketches televisivos que ele mesmo produz no Japão como Beat Takeshi. De qualquer modo, um filme que se muito confuso, quase insignificante, já que visto logo em seguida ao poderoso drama de Ang Lee.

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