A mostra latina do 31º Festival de Gramado não sustentou o excelente nível das primeiras jornadas, o Brasil dos longas voltou a decepcionar e a qualidade só não despencou porque os curtas seguraram, e bem, a balançada honra nacional. O ciclo de homenagens teve Cacá Diegues recebendo o Troféu Eduardo Abelin - um pioneiro gaúcho do cinema brasileiro nos anos 20. O festival também se lembrou com carinho e saudade de dois nomes que ajudaram a construir a história do cinema brasileiro: José Lewgoy e Walter Hugo Kouri. E os premiados do concurso paralelo de Super 8, como de hábito, fizeram sua ruidosa festa de premiação aos melhores no palco do Palácio dos Festivais. Ainda não foi desta vez, com ''Manequim 37'', que Londrina levou prêmios na bitola.
Na programação paralela, uma considerável quantidade de literatura cinematográfica foi lançada aqui, com a presença dos autores. Na estante de novos títulos estão obras dos críticos Tuio Becker, Luis Carlos Merten e Luiz Zanin Oricchio, do cineasta Carlos Gerbase, e o roteiro do filme ''Cidade de Deus''.
Como sempre, o Festival de Gramado decola na metade e atinge velocidade máxima hoje e amanhã, dia da premiação. Mas este ano o ritmo ficou ainda mais lento por causa do calor que tomou conta da serra. Até ontem, malhas, cachecóis, luvas e casacos pesados continuavam à espera de uma guinada no tempo, prevista a partir de hoje. As temperaturas altas e atípicas para esta época do ano têm obrigado as belas e famosas a abdicar do chique invernal e a recorrer a modelitos de exceção - camisetas e que tais.
Noite de gala para o curta-metragem. Três títulos em competição, três propostas atestando a diversidade. ''Carolina'', de carioca Jéferson De, é o retrato-resgate, ao mesmo tempo lírico e pungente, da escritora negra Carolina Maria de Jesus, que nos anos 50 ficou famosa com a publicação de seu diário de favelada, ''Quarto de Despejo'', publicado em dezenas de países. O texto forte de Carolina, lido em partes no filme pela personagem vivida por Zezé Motta, atesta que neste tempo as coisas pouco mudaram em relação ao estado de miserabilidade de milhões de pessoas no País, embora seu exemplo de denúncia tenha rendido bons frutos. Como este jovem diretor, Jéferson De, criador do selo cinematográfico ''Dogma Feijoada''.
Também muito aplaudido, o paranaense ''Visionários'', de Fernando Severo, impressiona pela elegância formal a serviço de uma idéia instigante. A base do roteiro são duas experiências, uma religiosa e outra mística, erguidas pelos ''visionários'' do título, agricultores que na segundo metade do século passado esculpiram no Norte do Paraná impressionantes santuários localizados no meio do nada e hoje reduzidos a ruínas. Severo fez um belo filme, um mergulho poético-experimental em que imagens e trilha sonora se entrelaçam à perfeição para realçar o assombro e a beleza destas experiências.
Trabalhando o humor negro com grande eficiência, o paulista ''No Bar'' já é um dos preferidos do público, e dificilmente deixará de levar prêmios. Não se inclui na vertente filme-anedota, opção fácil e perecível. É uma pequena comédia (8 minutos), mas com alto poder de criatividade e empatia. O diretor-roteirista Paulo de Tarso Mendonça leva às últimas consequências do ''nonsense'' a controvérsia entre vendedor e consumidor, surgida recentemente por causa das mensagens anti-tabaco estampadas nas fotos dos maços de cigarro, por imposição de lei federal. Diante do ''portuga'' dono do bar, irreverência e crítica mordaz são as armas dos consumidores, em diálogos saborosos e de fato muito engraçados. De quebra, a ''marvada pinga'', como vício colateral nunca lembrado em campanhas governamentais, é contemplada com uma espinafração não menos hilariante.
E então chegamos a parte penosa da jornada. Obra portentosa da literatura portuguesa, mas não inabordável, ''A Selva'', de Ferreira de Castro, chega ao cinema em superprodução luso-hispano-brasileira. Dirigido por Leonel Vieira, que há alguns saiu de Gramado com o Kikito de melhor filme latino para ''À Sombra dos Abutres'', este filme de alto orçamento também para os padrões portugueses (cerca de 4 milhões de dólares) conta a história de um jovem monarquista português que se refugia na Amazônia brasileira em 1912, mais precisamente num seringal encravado na densa selva tropical, onde passa a viver violentos conflitos com o inóspito meio ambiente.
O que incomoda na narrativa de Vieira é o divórcio entre aparência e essência, tornando difícil para o espectador compartilhar as emoções que o filme procura trabalhar. A majestade da selva como uma espécie de ''paraíso perdido'', como a viram os olhos de Ferreira de Castro - ele mesmo experimentou as agruras do ''inferno verde'' -, não chega nunca ao espectador por terra, nos conflitos cravados na chão, mas sempre pela via aérea, em amplos sobrevôos meramente descritivos. Outro problema são os personagens, que não se sustentam psicologicamente, como se traçados com pressa e jamais satisfatórios. Sente-se que Vieira teve em alguns momentos o filme nas mãos, mas o deixou escapar aos poucos, até restar quase nada da obra de Ferreira de Castro. Um ator português de ponta (Diogo Infante)), um ator espanhol idem (Karra Elejalde), e vários atores brasileiros também de primeiro time (Maitê Proença, Gracindo Jr., Chico Diaz, José Dumont, Cláudio Marzo) não são suficientes para sustentar este filme malogrado.
Menos sucedido ainda é o brasileiro ''Noite de São João'', segundo longa do gaúcho Sergio Silva (''Anahí de las Missiones''). Nem os conterrâneos se deixaram empolgar por esta adaptação livre de ''Senhorita Julia'', peça escrita em 1888 pelo sueco August Strindberg. No interior do Rio Grande do Sul, os camponeses fazem preparativos para a festa de São João. Durante a noite, o capataz da fazenda, João (Marcelo Serrado), apesar de namorado da cozinheira Joana, se envolve com a senhorita Julia (Fernanda Rodrigues), bela e arrogante filha do dono da terra. Por algumas horas, a situação de poder é subvertida, e Julia se submete a João. Mas só por algum tempo: logo as regras sociais historicamente vigentes e a real relação de mando são restabelecidas.
Não somente ''Noite de São João'' é comprometido por um roteiro tão pretensioso quanto de pé quebrado, como ainda sofre de incurável mal maior. O elenco de ''Oriundi'' (Serrado, Fernanda, Dira Paes) é no mínimo não convincente na composição de seus personagens, enquanto os aqui da terra, em maioria, se desdobram em atividades ''over''. Algumas virtudes, como a trilha musical e uma bela iluminação do fotógrafo Rodolfo Sachez não atenuam a impressão geral de fracasso.
O jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge viajou a Gramado a convite do festival.

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