A abertura dos 60 anos do Festival de Cannes, embora muito festejada pela mídia, ficou em segundo plano, pelo menos na pauta de ontem da cobertura de jornais e tevês da França. O destaque foi a troca de presidentes, mas não uma simples sucessão.
A saída de um desgastado Jacques Chirac e a posse da incógnita alternativa Nicolas Sarkozy marca o realinhamento ideológico do governo, que a partir de agora será conduzido pela direita, não extremada como a do ultra-radical Le Pen, mas de qualquer modo pró-Bush e capaz de despertar inquietações, como a série de ameaças terroristas do braço europeu da Al-Qaeda, via Internet.
Mas a partir de hoje o foco será redirecionado em tempo integral para a capital mundial do cinema nos próximos 10 dias. A cidade, banhada por uma primavera solar mas temperada na medida por um vento suave e constante, já não tem muitos espaços vazios, inchada por uma população transeunte que lota ruas, lojas, bares, restaurantes. Este ano, talvez por ser mais festivo, só o contingente de jornalistas ultrapassou quatro mil profissionais, oitocentos a mais que o ano passado. E para onde quer que o olhar se dirija, lá está alguma coisa, qualquer coisa associada a cinema.
Ainda que o grande entusiasmo tenha arrefecido depois da estréia do filme que abriu oficialmente a mostra do sexagésimo aniversário, ''My Blueberry Nights'' foi recebido com muito mais simpatia do que com restrições. Aliás, a única que se pode fazer é que a viagem sentimental de Wong Kar Wai já foi vista e acompanhada antes, em filmes feitos por ele mesmo mas até aqui falados em chinês. É um déja-v—, sem dúvida, mas que se revê sempre com inefável prazer, não importa quantas vezes ele se repita.
O que o espectador recebe deste novo trabalho do cineasta de ''Amor à Flor da Pele'' e ''2046'', a título de recompensa pela fidelidade a este indiscutível mestre das imagens, é outra bela incursão ao universo de seus temas recorrentes: amores perdidos, melancolia, solidão, lembranças. E há algumas novidades a considerar neste seu oitavo longa metragem.
Como por exemplo o detalhe fundamental de ser falado em inglês, o que amplia sua carga de emoções para fronteiras universais e favorece o acesso àqueles que consideram ''bizarro'' ou ''exótico'' um melodrama falado em outra língua que não o inglês. E também trabalhar com um elenco de ótimos atores anglo-saxões, especialmente Jude Law, Rachel Weiss e Natalie Portman. A estreante Norah Jones, estreando como atriz, cumpre satisfatoriamente sua parte, mas não é uma unanimidade. A ressaltar outra novidade: o notório e quase lendário atraso de Kar Wai com seus prazos estourados assombrando produtores e festivais não se cumpriu, e o filme chegou pronto e a tempo de abrir Cannes ontem.
O filme conta a história de uma busca. Não, de várias buscas. Amores falidos, seres mal amados. Dores de amores, não de paixões atormentadas. Encontros e desencontros. Lizzie (Jones) busca esquecer o namorado. Encontra um ouvido constante em Jeremy (Law), por sua vez há muito esperando a namorada russa que saiu sem mais de sua vida.
Lizzie põe o pé na estrada, Estados Unidos afora, e ao longo de muitos mil quilômetros cruza com outros outsiders da emoção, carentes, sofridos. ''My Blueberry Nights'' (Blueberry é uma espécie de torta feita com uma frutinha vermelha, o mirtilo como é conhecida por italianos e franceses) é uma reflexão sobre a distância que separa a dor de amor de um novo recomeço. Por isso, desta vez WKW acena com a esperança, frágil com certeza, mas sem dúvida um happy end.
O que de fato importa no fim das contas na carreira deste mestre das imagens musicais é seu estilo - iluminação primorosa de Darius Kondji, e trilha de Ry Cooder, combinada com hits que não se sabe de onde WKW retira, de tão amoldados. Cores, música, comportamentos e metafísica, estas são marcas registradas de um autor que já é ícone de sua geração.

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