CINEMA/FESTIVAL - As dores do mundo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de novembro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>De Brasília Especial para a Folha 2 
São trinta e oito edições de fato, e mais duas não ocorridas entre 1972 e 1974, por conta dos (maus) humores radicais da ditadura militar, que na época momentaneamente colocava freios no processo de resistência democrática sustentado também pelo cinema nacional. Então, na verdade, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em pleno andamento na capital, está completando quatro décadas, mas é o 38º, para efeito de catalogação na fonte e registro na História. Portanto, é a mais antiga entre todas as mostras do país.
Mas há outras diferenças a favor da dignidade: é ainda o mais politizado entre todos, não tanto pelo domicílio à sombra do poder central, mas pela maneira como propõe, conduz e interage no debate entre a classe produtora e o Estado. E esta politização, permeada pela transparência e mesmo não privilegiando o lado festeiro eleito como prioridade por eventos similares, se reflete afinal na participação e no engajamento de um público predominantemente jovem que todos os anos acorre em massa ao Cine Brasília, oferecendo o retorno esperado. De quebra, e enfrentando críticas de realizadores, este ano a organização honrou o compromisso assumido, firmou pé e somente abriu espaço na seleção oficial para longas-metragens absolutamente inéditos.
Na primeira rodada da competição em 35mm, quarta à noite, dois curtas e um longa dividiram opiniões. Com pretensões etnográficas e antropológicas demais, o curta mineiro Ãgtux (a palavra é na língua dos índios Maxacali, e é absolutamente impronunciável) não se resolve como peça de denúncia contra a precariedade em que (sobre) vivem os índios no Vale do Mucuri, interior de Minas Gerais. E nem se decide como divulgador poético das riquezas étnicas desses indivíduos: língua, manifestações artísticas, costumes, cotidiano, indícios de alguma resistência à crescente descaracterização cultural. A diretora Tânia Anaya mistura animação tosca com material ao vivo, mas não chega a tirar muito proveito da mistura de técnicas. O filme é mais pretensioso do que eficaz.
Mas desastre total veio aqui mesmo de Brasília, no outro curta da noite, À Espera da Morte. Um grupo de teatro cômico da capital, Os Melhores do Mundo (sobra pretensão, falta talento nesta trupe de sub-Cassetas, ou como diria alguém, bota sub nisso...), resolveu contar um piada, e para isso gastou preciosos recursos (o custo é acima de R$ 100 mil ), 14 longos e arrastados minutos e a paciência de uma platéia que, como foi dito acima, não lota o Cine Brasília por acaso.
A base do roteiro é aquela história real do submarino russo que encalhou no fundo do mar e os marinheiros ficaram dias esperando pelo pior. Que infelizmente aconteceu: todos morreram sufocados. Aqui, a grande revelação final é que o comandante se declara gay e apaixonado por um dos marinheiros. Só que no último minuto, depois da confissão a toda a tripulação, chega afinal o socorro, e ele tem que eliminar um por um para manter as aparências.
Munidos de grosseiro, desprezível humor negro, o tal grupo e o diretor André Luiz da Cunha fizeram um filme tão constrangedor quanto sem graça. E o pior são as filigranas que custaram dinheiro: boa direção artística simulando o submarino, todos os diálogos em russo e música retumbante gravada com grande orquestra. O que, aliás, foi em parte a salvação dos autores: ao final entra o hino russo com coral e tudo, com o som nas alturas. Tão alto que quase conseguiu dissimular as também muito sonoras vaias que os conterrâneos brasilienses destinaram a este enorme desperdício.
Mas o longa que abriu a competição da categoria, embora longe da excelência, serviu para espantar a má impressão dos russos. Dirigido pelo jovem (33) estreante Gustavo Acioli, ôIncuráveis" é antes de mais nada um estimulante exercício de atores, apenas dois em cena, Dira Paes e Fernando Eiras, ótimos ambos, espinha dorsal da narrativa. O filme é baseado em peça de Marcelo Pedreira, que também assina a adaptação com Acioli.
Homem e mulher não identificados por nomes se encontram na noite da cidade grande em local e em tempo não sabidos. Ele é suicida potencial, ela prostituta. É o encontro-confronto de duas solidões, duas monumentais carências. Arma-se um jogo de hipóteses sexuais e existenciais, uma trama que pode ou não ser o que parece. Há aparência de coisas, há inferições subliminares, há dores e consolos, há trocas, há transfusões de expectativas, anseios. Há o amor que pode ou não estar acontecendo, há identidades em fuga, identidades recém-descobertas.
É um trabalho denso, um filme de muitas e ricas hipóteses, sugestões e descobertas, um jogo que admite um terceiro parceiro que é o espectador. Embora trancados no quarto dela, metaforicamente imprensados entre a realidade e o desejo de superação desta realidade, os personagens são multifacetados, e é esta gama de nuances que não permite o tédio ou a desatenção da platéia. Fotografia (um tanto rebuscada), musica (funcional) e direção de arte dão o suporte necessário para que Dira Paes e Fernando Eiras executem um trabalho de enorme personalidade.


