São trinta e oito edições de fato, e mais duas não ocorridas entre 1972 e 1974, por conta dos (maus) humores radicais da ditadura militar, que na época momentaneamente colocava freios no processo de resistência democrática sustentado também pelo cinema nacional. Então, na verdade, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em pleno andamento na capital, está completando quatro décadas, mas é o 38º, para efeito de catalogação na fonte e registro na História. Portanto, é a mais antiga entre todas as mostras do país.
  Mas há outras diferenças a favor da dignidade: é ainda o mais politizado entre todos, não tanto pelo domicílio à sombra do poder central, mas pela maneira como propõe, conduz e interage no debate entre a classe produtora e o Estado. E esta politização, permeada pela transparência e mesmo não privilegiando o lado festeiro eleito como prioridade por eventos similares, se reflete afinal na participação e no engajamento de um público predominantemente jovem que todos os anos acorre em massa ao Cine Brasília, oferecendo o retorno esperado. De quebra, e enfrentando críticas de realizadores, este ano a organização honrou o compromisso assumido, firmou pé e somente abriu espaço na seleção oficial para longas-metragens absolutamente inéditos.
  Na primeira rodada da competição em 35mm, quarta à noite, dois curtas e um longa dividiram opiniões. Com pretensões etnográficas e antropológicas demais, o curta mineiro ‘‘Ãgtux’’ (a palavra é na língua dos índios Maxacali, e é absolutamente impronunciável) não se resolve como peça de denúncia contra a precariedade em que (sobre) vivem os índios no Vale do Mucuri, interior de Minas Gerais. E nem se decide como divulgador poético das riquezas étnicas desses indivíduos: língua, manifestações artísticas, costumes, cotidiano, indícios de alguma resistência à crescente descaracterização cultural. A diretora Tânia Anaya mistura animação tosca com material ‘‘ao vivo’’, mas não chega a tirar muito proveito da mistura de técnicas. O filme é mais pretensioso do que eficaz.
  Mas desastre total veio aqui mesmo de Brasília, no outro curta da noite, ‘‘À Espera da Morte’’. Um grupo de teatro cômico da capital, ‘‘Os Melhores do Mundo’’ (sobra pretensão, falta talento nesta trupe de sub-Cassetas, ou como diria alguém, bota sub nisso...), resolveu contar um piada, e para isso gastou preciosos recursos (o custo é acima de R$ 100 mil ), 14 longos e arrastados minutos e a paciência de uma platéia que, como foi dito acima, não lota o Cine Brasília por acaso.
  A base do roteiro é aquela história real do submarino russo que encalhou no fundo do mar e os marinheiros ficaram dias esperando pelo pior. Que infelizmente aconteceu: todos morreram sufocados. Aqui, a grande revelação final é que o comandante se declara gay e apaixonado por um dos marinheiros. Só que no último minuto, depois da confissão a toda a tripulação, chega afinal o socorro, e ele tem que eliminar um por um para manter as aparências.
  Munidos de grosseiro, desprezível humor negro, o tal grupo e o diretor André Luiz da Cunha fizeram um filme tão constrangedor quanto sem graça. E o pior são as filigranas que custaram dinheiro: boa direção artística simulando o submarino, todos os diálogos em russo e música retumbante gravada com grande orquestra. O que, aliás, foi em parte a salvação dos autores: ao final entra o hino russo com coral e tudo, com o som nas alturas. Tão alto que quase conseguiu dissimular as também muito sonoras vaias que os conterrâneos brasilienses destinaram a este enorme desperdício.
  Mas o longa que abriu a competição da categoria, embora longe da excelência, serviu para espantar a má impressão dos ‘‘russos’’. Dirigido pelo jovem (33) estreante Gustavo Acioli, ôIncuráveis" é antes de mais nada um estimulante exercício de atores, apenas dois em cena, Dira Paes e Fernando Eiras, ótimos ambos, espinha dorsal da narrativa. O filme é baseado em peça de Marcelo Pedreira, que também assina a adaptação com Acioli.
  Homem e mulher não identificados por nomes se encontram na noite da cidade grande em local e em tempo não sabidos. Ele é suicida potencial, ela prostituta. É o encontro-confronto de duas solidões, duas monumentais carências. Arma-se um jogo de hipóteses sexuais e existenciais, uma trama que pode ou não ser o que parece. Há aparência de coisas, há inferições subliminares, há dores e consolos, há trocas, há transfusões de expectativas, anseios. Há o amor que pode ou não estar acontecendo, há identidades em fuga, identidades recém-descobertas.
  É um trabalho denso, um filme de muitas e ricas hipóteses, sugestões e descobertas, um jogo que admite um terceiro parceiro que é o espectador. Embora trancados no quarto dela, metaforicamente imprensados entre a realidade e o desejo de superação desta realidade, os personagens são multifacetados, e é esta gama de nuances que não permite o tédio ou a desatenção da platéia. Fotografia (um tanto rebuscada), musica (funcional) e direção de arte dão o suporte necessário para que Dira Paes e Fernando Eiras executem um trabalho de enorme personalidade.

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