CINEMA/FESTIVAL - Almodóvar e sua bela volta às raízes
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de maio de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para a Folha 2 
Não me lembro de outra coletiva em Cannes em que Pedro Almodóvar estivesse tão calmo, amável e de bem com a vida. ''Todo Sobre Mi Madre'', de 1999, era sua estréia no festival. Nervosismo e humor instável justificados. E prêmio de direção. ''La Mala Educación'', em 2004, foi filme de abertura oficial, enorme expectativa (parcialmente frustrada) e cobranças da crítica. Agora não. Ele veio em paz com ''Volver'', seu último filme aqui em competição, com seu elenco de mulheres magníficas, com seu mais intenso mergulho no próprio passado depois da sessão de exorcismo em ''La Mala Educación''.
''Marca a mais profunda volta às minhas raízes, é uma reconciliação com a minha infância'', disse ele abrindo a conversa ontem cedo com os jornalistas, logo após a primeira exibição no Festival e na França já lançado na Espanha, é sucesso de público com um milhão e meio de espectadores.
A infância de Almodóvar, na região da Mancha, centro-sul da Espanha, é povoada por mulheres, muitas mulheres de carne e osso, e de certa forma assombrada por fantasmas. Elas e eles estão todos no filme, numa história que une três gerações de mulheres. Raimunda (Penélope Cruz) e a irmã, Sole (Lola DueÀas), sempre visitam a tia Paula no interior e logo voltam para Madri. Abandonada pelo marido, Sole é cabeleireira que trabalha em casa. Raimunda dá duro em várias frentes, enquanto o marido bebe e assiste a futebol em casa, quando não está discretamente assediando a filha adolescente de Raimunda.
Um dia, um ataque, um crime, um corpo a esconder, um pacto entre mãe e filha. E logo em seguida a morte da tia na pequena cidade da Mancha. E o fantasma da mãe (Carmen Maura) que vem morar com Sole, carregando mágoas e segredos que serão revelados mais adiante. Na vida dessas três mulheres, áreas de sombras, lembranças, coisas escondidas, coisas mal contadas, fatos dolorosos, traumas reprimidos. E a morte, sempre presente de uma forma ou de outra. Resumida assim, a trama parece irremediavelmente pesada e empobrecida, soap opera à base de dramaturgia enlutada.
Mas com seu enorme talento para matizar o drama realista com doses precisas de humor, com sua habilidade habitual de surpreender o espectador a cada instante com o inusitado e o imprevisível aqui o elemento fantástico, quase surreal , Almodóvar injeta doses substanciais de generosa (e às vezes hilária) humanidade neste painel de dores habitado por mulheres ''falo de todas as mulheres da minha infância, já que fui criado somente por mulheres'', enfatizou ele na coletiva. Em ''Volver'', os homens não têm espaço, a não ser mortos, ou quando surgem são apenas periféricos. Seria de certa forma o inverso de misoginia. O que em absoluto transforma o filme em discurso feminista. É, sim, um retrato profundamente feminino. E uma obra em que a presença da mãe do cineasta, e desta influência em sua vida e carreira, é marcada com muita força.
''Minha autêntica formação dramática, as origens da ficção que escrevo, tudo está na minha infância. Pela primeira vez olhei para trás, para os primeiros anos, e acho que, refletindo sobre o tempo que me resta, pude rever minha infância como uma fase mais doce, mais cálida. E eu sempre me inspiro em mim mesmo nos meus filmes. O melhor e o pior estão dentro de nossas naturezas'', acrescentou ele.
No filme, mais uma vez Almodóvar explicita influências e referências. Ou melhor, recorre novamente, sem nenhum pudor ou vergonha de assumir, mas com autêntica veia aberta de cinéfilo confesso que é, ao seu baú de ícones. No caso, Anna Magnani em ''Belíssima'', de Visconti, e ao look e à composição de Sofia Loren em ''Duas Mulheres'', de Vittorio De Sica.
Uma linda, deslumbrante Penélope Cruz se derreteu de amores publicamente pelo diretor. Também, não é para menos. Ela está irretocável no filme, enterrando aquela imagem constrangedora que Hollywood vem construindo dela, submetida a papeis decorativos ou menos que isto. E esta capacidade de atropelar as frivolidades ela demonstrou também fora de cena, ali mesmo na sala de imprensa lotada. Uma esvoaçante e irresponsável repórter chinesa tentou desviar o ótimo clima da coletiva e perguntou sobre Tom Cruise.
Antes dos aplausos veio a resposta: ''Não quero ser rude com você, e em respeito a seus colegas aqui presentes não tenho mais comentários a fazer''. Grande Penélope, que soube honrar o nome e esperar, com amadurecida paciência, um novo e decisivo convite de seu melhor diretor.
* O jornalista está em Cannes a convite da organização do festival.


