Cinema/Festival - A violência, oficial e globalizada
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quinta-feira, 16 de agosto de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Gramado, especial para a Folha 2 
A esta altura, faltando dois dias para o encerramento da mostra gaúcha, o panorama de títulos selecionados evoluiu da letargia inicial a um patamar muito animador. Isto se deve tanto aos longas quanto aos curtas, mas é destes que a competição parece retirar sua maior vitalidade. A prova irrefutável é o Palácio dos Festivais lotado diariamente a partir das 5 da tarde, novo horário para a competição da categoria.
A mesma situação, no entanto, não vem ocorrendo no chamado horário nobre, faixa a partir das 7 da noite em que um público, entre reduzido e arredio, deixa constrangedores espaços vazios durante a projeção dos longas latinos e brasileiros em concurso.
Como o nível dos curtas oscila entre bom e ótimo, o que coloca numa mesma posição a grande maioria dos 13 títulos da seleção da categoria, o ''Satori Uso'', do londrinense Rodrigo Grota, tem a seu lado concorrentes de peso. Mas as chances de sair daqui com alguma recompensa permanecem. Além de agradar o publico, o filme caiu nas graças de boa parte da crítica, e segundo Luis Carlos Merten, de ''O Estado de São Paulo'', conhecer o filme de Grota já teria justificado a ida a Gramado. ''Satori Uso'' praticamente monopolizou a sessão de debates dos curtas.
Na série de homenagens, o Troféu Eduardo Abelin foi entregue ao pessoal da Casa de Cinema de Porto Alegre, entidade cooperativada que comemora este ano duas décadas de intensa atividade cinematográfica, traduzida não só pelas muitas realizações em curta e longa metragem e na invejável coleção de prêmios recebidos no Brasil e no exterior, mas também em especiais e séries televisivas, cursos e fóruns de debates. O agradecimento dos homenageados, à frente o cineasta Jorge Furtado, foi marcado pela criatividade e pelo bom humor.
Não sem motivos reunidos na mesma noite, o longa latino ''Cobrador - In God We Trust'' e o brasileiro ''Condor'', cada um a sua maneira, se debruçam sobre a violência, esta metástase que assola o mundo globalizado. O primeiro, uma co-produção entre México, Brasil, Espanha, Argentina e Inglaterra, é assinado por Paul Leduc. O segundo, um documentário brasileiro, é dirigido por Roberto Mader e trata dos anos de chumbo e dor na América Latina varrida pelas ditaduras militares, anos 1960/1970.
''Quem está pondo dinamite na cabeça do século?'' pergunta este alarde poético da musica de Tom Zé ao final de ''O Cobrador'', filme que se aproxima de um fenômeno aterrador: a globalização da violência, idéia ao mesmo tempo inquietante, contraditória e, por que não, óbvia. Ao adaptar quatro contos de Rubem Fonseca, o diretor Paul Leduc (cineasta pouco conhecido no Brasil, mas uma instituição no México, seu país natal) realizou um filme coral sobre personagens de vários lugares do mundo que recorrem à violência e matam de maneira imprevista e irracional, como se obedecendo a um caprichoso mandato interior.
''Condor'', de Roberto Mader, pertence a esta categoria de documentários muito mais necessários do que qualquer outra coisa. Seu tema: a estreita e macabra aliança que os governos militares da Argentina, Uruguai, Brasil, Chile, Bolívia e Paraguai celebraram principalmente nos anos 1970 para exterminar, ideológica e fisicamente, os movimentos de resistência da esquerda continental, com supervisão financeira, estratégica e metodológica da CIA - a malsinada Operação Condor. O resultado foram milhares de desaparecidos, mortos e parentes das vítimas, estes carregando feridas profundas jamais cicatrizadas.
No palco antes da exibição, o diretor Mader disse que o filme é dirigido às novas gerações que pouco ou nada sabem destes fatos. Nada mais correto e justo. Resta agora, depois da estréia comercial, abrir o leque desta ampla vitrine, não apenas nacional, mas de todo o continente.
* O jornalista está em Gramado a convite da organização do Festival


