CINEMA/ESTRÉIAS 'Ray' e o Oscar de melhor ator
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
O jogo está posto, façam suas apostas. O título que faltava para o cinéfilo londrinense arriscar seus palpites sobre o grande vencedor do Oscar na noite de domingo está a partir de hoje disponível no circuito local. Ray (veja a programação de cinema na página 2) não vai mesmo ganhar como melhor filme, mas é favorito disparado para proporcionar o prêmio de melhor ator a Jamie Foxx no papel-título. Ele ainda aparece com chances entre as candidaturas de coadjuvante, como o estressado taxista de Colateral. Nos 78 anos da história do prêmio, Foxx é o décimo intérprete a conseguir esta dupla nominação.
Mais uma entre as diversas cinebiografias este ano gravitando em torno do Oscar, o filme dirigido por Taylor Hackford conta a história do grande Ray Charles, desde as origens menos favorecidas na Geórgia natal e na Florida até a plenitude como artista, em trajetória complicada pela deficiência visual, tumultuada pela luta anti-segregacionista e exasperada pela turbulência amorosa, sem excluir deste contexto uma heróica superação ao uso de drogas pesadas.
Ray Charles Robinson foi uma das figuras máximas do rythm & blues, do jazz-blues e da soul music com elementos gospel, um mestre da composição e, acima de tudo, da interpretação vocal e pianística, apaixonada, emocional, uma influância decisiva para os grandes roqueiros contemporâneos, que nunca negaram a dívida que tinham para com esta prodigiosa fonte seminal. Ray foi um homem que venceu sua precoce limitação física (ficou cego aos 7 anos) para afinal converter-se em mito e personagem chave para o reconhecimento integral da música negra. E esta é uma realidade de domínio público, conhecida bem antes de o filme existir.
Uma restrição comum sobre filmes biográficos é a de que se limitam a mostrar fatos supostamente reais, mas sem mergulhar mais fundo nas motivações e na personalidade do personagem. Por isso, muitas vezes o espectador assiste a história da pessoa, mas fica sem realmente conhecer o indivíduo. Ao final dos 152 minutos de Ray restam uma dúvida e uma certeza: não fica lá muito claro se o roteiro conseguiu que Charles fosse desnudado o suficiente; mas por outro lado ninguém pode acusar o diretor Hackford de não ter tentado com entusiasmo.
Convenhamos. O filme não é tão bom como é o intérprete. Nas duas horas e meia de duração (nos Estados Unidos já foi lançada em DVD a versão do diretor, ou o directors cut, com 178 minutos) há longas passagens de relevância bem mais que duvidosas - são desnecessárias e tediosas. Os esforços para humanizar o personagem com a recriação de sua infância e a inclusão de alucinações produzidas por um episódio traumático (o afogamento de um irmão menor) roçam ocasionalmente o ridículo. No entanto, deve-se reconhecer o esforço da direção pelas tentativas de ilustrar as motivações e os conflitos internos de Charles, embora esta técnica nunca funcione a contento. E isto porque Hackford é quem se pode chamar de diretor rotineiro e impessoal - aquele narrador competente, mas incapaz de marcar seu território com a força de um estilo definido, assinando sempre filmes que nunca são integralmente ruins, mas carentes de personalidade definidora, de marca registrada enfim (A Força do Destino, O Advogado do Diabo, Eclipse Total, Prova de Vida).
Trabalhando apenas dentro dos limites estritos de um gênero mimético e parasita como é a cinebiografia, Hackford não soube alçar vôo mais arrojado, o que determina a satisfação das expectativas de reverência do espectador. Se por momentos a trama anda bem e se distancia dos clichês da biografia homem-pobre-que-triunfa-apesar-de-tudo, há muitos outros em que a história oficial se intromete e permanece.
O melhor desse filme extenso fica mesmo por conta de Jamie Foxx e da música. O ator, com bravura e inegável espírito de corpo, faz ressuscitar Ray Charles com memorável repertório de minúcias. O trabalho, pouco mais que perfeito e que já rendeu a Foxx um Globo de Ouro, deverá ser recompensado domingo com outra estatueta dourada, sonho maior de toda a comunidade hollywoodiana.


