Há dois Sidneys, cineastas norte-americanos, em quem se pode confiar. São dois veteranos, um de sobrenome Lumet - este ano reconhecido com um Oscar tardio - e o outro chamado Pollack. Não fosse pela morte prematura de Alan J. Pakula e teríamos ainda hoje em ação um trio de realizadores liberais e humanistas de perfil muito parecido entre si. Pollack, aos 70 anos e afastado dos sets desde 1999, quando realizou o remake do clássico 'Sabrina', está de volta com 'A intérprete', filme que traz suas marcas mais características e que se vincula a outro 'thriller' político poderoso, 'Os três dias do condor', também assinado por ele há exatos 30 anos e veículo para o apogeu da carreira de Robert Redford, a quem dirigiria em outros cinco filmes marcantes.
'A intérprete', em estréia nacional (veja a programação de cinema na página 2), é um filme compacto, conciso, com uma bem amarrada fórmula que une uma carismática dupla de intérpretes a uma intriga internacional recheada de desvios inesperados e ambientada no impressionante cenário de corredores e salas do prédio das Nações Unidas em Nova York - pela primeira hospedando uma equipe de filmagem especialmente autorizada.
Nicole Kidman, entre muito adorável, muito vulnerável, muito energética e algo misteriosa, é a sul-africana Silvia Broome, uma profissional da tradução simultânea que trabalha na sede da ONU. Logo no início da trama, ela inadvertidamente ouve, numa língua que poucos falam e poucos entendem, o plano de assassinato de um ditador e genocida africano que deverá acontecer em poucos dias, em plena Assembléia Geral das Nações Unidas. A partir desse momento, a moça terá que se proteger, já que também passa a ser um alvo potencial, e também convencer alguém mais a acreditar em sua história, a fim de poder salvar a vida do homem. Quem aparece é Tobin Keller (Sean Penn), o cínico agente de segurança americano com sérias dúvidas sobre a veracidade da história da intérprete.
Em que pese as naturais dúvidas iniciais, certas perigos que rondam Silvia tornam sua versão aceitável. Mas por outro lado, algumas circunstâncias pessoais - solidão absoluta, entre outras - acabam por transformá-la na personalidade ideal para estar envolvida em uma conspiração. Tudo se desenrola em atmosfera de paranóia.
Com uma organização que lembra o hitchcockiano 'O homem que sabia demais' e um roteiro cuidadosamente elaborado, Pollack demonstra que não perdeu o jeito quando organiza o suspense ao longo da narrativa. A investigação que corre contra o relógio, exatamente a respeito de uma trama sinistra para matar um homem detestado, oferece inúmeros lances desconcertantes. E é neste quadro conspiratório que os dois personagens centrais, Silvia e Tobin, vão ganhando consistência como protagonistas de uma história de amor impossível. São dois personagens complexos, que da desconfiança inicial acabam convergindo para a simpatia e o afeto.
Habilidoso e nunca deixando de usar de malícia, Pollack vai envolvendo por etapas o espectador. 'A intérprete' só não consegue ser ainda melhor porque se obriga a inventar certa mitologia política, metaforizando o destino de vítimas e algozes na África.

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