Três fatos foram determinantes para que a ficção científica ganhasse, afinal, respeitabilidade no século passado: as conquistas no campo da genética, a bomba atômica em 1945 e a chegada do homem à Lua em 1969. Presente em todos, a tecnologia. E ao longo dos anos, as consequências e as transformações produzidas por ela acabaram sendo aquilo que conhecemos como sinais do tempo. Das fábulas tecnocráticas de Robert Heinlein e das obscuras profecias de Philip Dick até o apocalipse urbano de J.G.Ballard, o olhar em direção ao futuro foi ficando mais e mais desencantado à medida em que o homem aperfeiçoava sua capacidade destrutiva.
Desta perspectiva parte um outro olhar, uma concepção melancólica e evocativa do passado em direção ao futuro, presentes em muitos momentos da obra de Ray Bradbury; histórias que evocam as aventuras de Julio Verne ou os primeiros livros de H.G. Wells, e que recuperam os antigos seriados que foram soberanos nos anos 1930. É neste nicho que procura se acomodar ''Capitão Sky e o Mundo de Amanhã'', em lançamento a partir de hoje na cidade (veja a programação de cinema na página 2).
O filme, que resultou em obra com estética impressionante, mas narrativamente pobre, tem seu argumento localizado num mundo ''retrô-futurista'' que tenta harmonizar a art-decô dos anos trinta com a ficção científica dos anos 1950. A formulação, embora não original, alcança um tom bem mais épico do que os precursores ''Brazil'' de Terry Gilliam e ''O Sombra'' de Russel Mulcahy.
No início da história o espectador vê Nova York ser atacada por fantásticos robôs gigantes. E para salvar a cidade existe apenas uma pessoa: o Capitão Sky (Jude Law), que em seu veloz avião enfrenta os invasores mecânicos, de alguma forma relacionados à estranha história investigada pela repórter Polly Perkins (Gwyneth Paltrow). A dupla vai então unir esforços para descobrir por que notáveis cientistas do mundo estão desaparecendo simultaneamente com o ataque das máquinas. O genial Dex (Giovanni Ribisi) e a ambígua Franky (Angelina Jolie) vão dar uma mãozinha.
É óbvio que o roteirista-diretor estreante Kerry Conran se inspirou na literatura ''pulp ficcion'' e nos seriados. Em várias sequências o filme apreende conceitos e imagens daqueles livros antigos (atenção: literatura barata e popular, sempre inventiva e jamais vagabunda) e dos filmes em capítulos, traduzidos na tela com inegável beleza plástica é assombroso como são fundidas, com alta tecnologia, as influências expressionistas e futuristas combinadas na nostálgica fotografia sépia.
O problema é que ''Capitão Sky'' parece homenagem carinhosa em demasia, e o argumento acaba se expondo como simples aventura infantil pouco plausível e excessivamente branda. As espetaculares cenas de ação podem estar maravilhosamente desenhadas e executadas, mas não há respaldo dramático neste roteiro, não há incertezas, tudo está previsto e automatizado. E sem incertezas até a animada família dos Incríveis sabe disso não há vida.

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