Mente retorcida, a de Stephen King. Prato cheio e suculento para banquete em simpósio de psicanalistas. E como Hollywood gosta dele, deste seu mundo de perversidades visíveis e invisíveis! Também não é para menos: seu universo de patologias é cultura típica do quintal da América, seus horrores estão localizados em limites precisos - e por não terem autonomia universal, King será sempre um autor menor, goste ou não a legião king size de fanáticos leitores. Tem mais uma adaptação de novela dele estreando hoje no Brasil, ''Janela Secreta'' (veja a programação de cinema nesta página), uma precária, desinteressante experiência de tensão e suspense. E o que está aqui embutido como material autobiográfico, somente King e seus demônios têm a resposta.
Mort Rainey (Johnny Depp) é escritor bem sucedido. Neste exato momento ele não está em seus melhores dias. O inferno astral é requintado. Curte divórcio recente por conta da traição da mulher. Em profunda crise existencial que lhe bloqueia qualquer ímpeto criativo, passa os dias descabelado e metido no roupão amarfanhado da ex, estirado no roto sofá da cabana à beira de um lago próximo a Nova York, bebendo, cochilando ou remoendo o passado em voz alta para o velho cão portador de catarata. Nada poderia ser pior, mas é: quem bate um dia à porta é um tipo sinistro, John Shooter (John Turturro), que o acusa de ter roubado uma história sua. O desconhecido pede uma compensação justa, Rainey tenta dissuadi-lo. Shooter faz então o gênero insistente e ameaçador. Começa o jogo de gato e rato. Rainey agora já sabe que Shooter o conhece bem mais do que imagina.
Era ou não, um instigante ponto de partida para, na pior das hipóteses, oferecer algumas cínicas mas benéficas colocações sobre a crise na criação artística e consequentes medos diante de pressões diversas deste novo século? Pois o diretor David Koepp, em outras ocasiões melhor sucedido como roteirista (''O Quarto do Pânico'', ''O Homem Aranha''), consegue diluir o interesse do publico até quase nada restar já bem próximo do fim. Nunca é um bom sinal que o espectador de um filme de suspense fique esperando pelo final, não para ver como se resolvem os enigmas colocados pela trama, mas para comprovar que o desenlace era mesmo aquele já previsto desde o começo. Neste ''Janela Secreta'' as coisas se passam mais ou menos assim, correndo frouxas e previsíveis, e não é preciso ser um especialista no gênero para adivinhar desde logo o porquê do enredo. Há muito aporte de informações, e muito cedo. Daí...
Johnny Depp é por si um ser bizarro, o que o qualifica a rigor para compor o personagem. E a porção tenebrosa que emerge do camaleônico John Turturro encontra facilidades em esconder o lado histriônico do ator. A recíproca também seria verdadeira. A boa trilha musical de Philip Glass está sempre lembrando que um bom filme de suspense precisa de outros ingredientes.

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