CINEMA/ESTRÉIAS - Uma boa história no Ártico
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quinta-feira, 28 de abril de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Fique atento ao filme menos badalado entre o trio de lançamentos de hoje, aquele mais discreto, com jeito de que não vai oferecer grande coisa. E não vai mesmo, pelo menos essa 'grande coisa' que se traduz em foguetório de artifício, aquilo que não falta nos outros dois da programação e de resto em nove entre dez barulhentos produtos seriados saídos da Califórnia: ação abundante e sem rumo, em quantidade e variedade. O produto a reparar com mais atenção é 'Desafio no Ártico' (veja a programação de cinema na página 2), título de resto pouco inspirado perto do original 'The Snow Walker' (O Caminhante da Neve), mas até que adequado à trama proposta.
Baseado no conto 'Walk Well My Brother', do canadense Farley Mowat, que em 1983 já havia fornecido o argumento para o belo 'Os Lobos Não Choram', esta história de sobrevivência em condições extremas é assinada por Charles Martin Smith não por coincidência o ator, agora transformado em diretor, que há duas décadas interpretou o cientista que vive experiência única, aprendendo com os lobos a lidar com a entorno adverso e com sua própria natureza humana.
Narrada meio à moda antiga e por isso mesmo com sabor de coisa nova, a narrativa é ambientada em 1953 e tem como eixo o arrogante veterano de guerra Charlie Halliday (Barry Pepper), agora sobrevivendo como piloto aéreo comercial nos confins gelados do extremo norte do Canadá, inóspita região ártica. Durante missão de rotina, ele é parado por uma família de esquimós Inuits que precisa de cuidados médicos para alguém doente, a jovem Kanaalag (Annabella Plugattuk). Em troca de uma boa recompensa, ele concorda em levá-la até um posto. Mas o avião cai e a dupla fica entregue à própria sorte no meio da vastidão gelada do Ártico.
'Desafio no Ártico' chega ao espectador despretensiosamente, e o olho do diretor Martin Smith funciona como um termômetro preciso para contar este drama de sobrevivência, este embate entre natureza humana e a outra indomável, a maiúscula Natureza. O amor e o apego pelo material filmado, às vezes comprometem certa necessidade de encurtar, e alguns necessários enxugamentos aqui e ali não acontecem. As interpretações contribuem para garantir o interesse, bem como a trilha de Michael Danna, que ajuda a emoldurar o visual majestoso.
Da contemplação à agitação. Agora o assunto é 'Refém'. Los Angeles. Joe mantém sob a mira Sean e sua mãe. Jeff (Bruce Willis), um negociador, tenta discutir com outro bandido. A negociação não se realiza e o episódio termina num banho de sangue. Um ano depois, Jeff agora é chefe de polícia de Bristo Camino, pequena cidade da Califórnia. Ele tenta esquecer o passado. Até que um dia...
Se logo ao início do filme o espectador fica cara a cara com um Bruce Willis irreconhecível, barbudo e de cabelos grisalhos, um perdedor decadente, em pouco tempo aquele look duro de matar estará de volta. Baseada em romance de Robert Crais, a trama de 'Refém' é extremamente clássica (no sentido antes que ela se repete com muita frequência): é a história do tira traumatizado por uma tragédia do passado que, depois de tempos, está às voltas com o mesmo tipo de problema. Brutalidades, violências físicas e morais aliadas a uma boa dose de caricaturas a fim de assegurar o máximo de empatia com o espectador eis a receita do filme-fórmula hollywoodiano. Tão eficaz na ação quanto limitado ao nível da verossimilhança, 'Refém' nos remete a um mundo onde os bons e os maus são todos sempre muito fortes, estereotipados por uma mecânica de roteiro sempre muito bem azeitado não por acaso o roteirista Doug Richardson é o mesmo autor (?) dos 'Duros de Matar 2 e 4'.
E resta 'XXX 2 - Estado de Emergência' (há controvérsias sobre o título correto em português, mas quem se importa, afinal?), que também entra dividindo circuito a partir de hoje. Como o próprio nome indica, é a sequela de 'XXX', sucesso de público de três anos atrás, mas agora sem o diretor e ator originais, Rob Cohen e Vin Diesel (há alguém aí que se importa com as trocas?). Agora quem assina o ponto é a grossura, a força e a energia física de Ice Cube, que mantém os triplo X tatuado na nuca, a volúpia pela velocidade e a coragem para enfrentar qualquer desafio. Mas não herdou nada do humor de Vin Diesel (que há não era muito) e perdeu por completo o espírito romântico.
Há um fiapo de argumento tentando sobreviver. Há uma premissa próxima a do filme anterior: a Agência de Segurança Nacional, dirigida por Samuel L. Jackson, precisa de um super-alguém para desbaratar as destruidoras intrigas internas. E há também um ligeiro sabor de atualidade nos vagos contornos políticos do imbróglio, mas nada que atrapalhe atrapalhar o grande festival de violência que o outrora interessante diretor neozelandês Lee Tamahori realiza para alegria das hordas barulhentas que devem invadir as salas.


