Já setuagenário e nos últimos anos entregue a papéis medíocres, o ator Omar Sharif chegou ao Festival de Veneza de 2003 ressuscitado por conta do Leão de Ouro especial conferido a uma carreira consolidada ao longo de quatro décadas. E saiu com uma consagração bônus: o público o elegeu melhor ator da mostra, ainda que sua presença na tela não estivesse em competição - mais tarde o prêmio seria reafirmado, agora oficialmente, com a entrega do César 2004, o Oscar dos franceses. De fato, foi grande a boa surpresa para todos diante de ''Um Amor Sem Fronteiras'', que estréia amanhã em Londrina.
O filme, uma cooperação entre França e Turquia, é baseado na novela ''O Senhor Ibrahim e as Flores do Alcorão'', do dramaturgo francês Eric-Emmanuel Schmitt, também transformada em peça de sucesso nos palcos europeus. O argumento é simples, e o diretor François Dupeyron soube na medida como extrair dessa simplicidade a rica substância humanística dos personagens. Apesar da referência religiosa no título original, ''Uma Amizade Sem Fronteiras'' não fala de credos oficiais, mas de tolerância e, sobretudo, da solidão. O filme tem mais a ver com as flores que também estão no título, flores da razão, da liberdade.
Um bairro boêmio e pobre em Paris, anos 1960. Sharif é o senhor Ibrahim. Homem mais que maduro, já um velho comerciante turco, muçulmano sufí (mais místico que fundamentalista). Ele é dono de uma espécie de mercearia. Está na França há 50 anos. Ibahim é uma pessoa melancólica. É um solitário metódico, rodeado por sua latas, garrafas e recordações intraduzíveis. Momo (Pierre Poulanger) é o vizinho da frente, adolescente precoce filho de mãe ausente e que vive com um pai inepto e depressivo. Está em rito de passagem, tentando se encontrar afetiva e sexualmente com as prostitutas da vizinhança. O garoto é judeu, mas esse é traço que menos importa. Ibrahim e Momo começam a se falar com mais frequência e logo a descobrir-se em uma frágil mas bela amizade, que acabará resgatando os dois de suas solidões paralelas.
De um lado, alguém que começa a viver. De outro, alguém que se encontra próximo ao fim do caminho. Ibrahim e Momo são complementares, numa relação inteligente, temperada por sensibilidade e humor. O garoto dá ao comerciante uma última justificativa para viver, e o ancião infunde a Momo a confiança plena de sabedoria que o jovem precisa para seu crescimento anterior. Ibrahim respeita o Alcorão, mas suas crenças não interferem em absoluto em seu humanismo e na tarefa que assume como transmissor de valores, na filosofia de vida que transmite a Momo. No fundo, ele interpreta o livro sagrado como uma forma pagã de viver mais livremente.
''Uma Amizade Sem Fronteiras'' é filmado muito em primeiros planos, primeiros planos como opção estética e de sentimentos. É um filme para ser visto mais de perto, para que se desfrute simultaneamente a inocência da infância e a sabedoria da terceira idade. Na entrevista que concedeu à ''Folha'' no Festival de Veneza do ano passado, um animado Omar Sharif mandou um recado para as platéias que fossem ver o filme: ''É um belo roteiro, escrito com palavras justas e inteligentes. Espero que o público, quando assistir, entenda que para viver bem os homens devem dialogar entre si. Mesmo israelenses e palestinos. Mas quanto a esses dois não sou otimista. Talvez meus filhos, ou os filhos dos meus filhos vejam o fim deste conflito''.

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