Mesmo se o frio persistir durante o fim de semana, o espectador tem motivos para se animar e enfrentar um multiplex densamente povoado por multidão ainda às voltas com bucaneiros e artrópodes. Além de agasalho, recomenda-se espanar a inteligência cinéfila para curtir ''Um Crime de Mestre'' (veja a programação de cinema na página 2). Que, embora entretenimento acima da média, também admite pipoca.
''Um Crime de Mestre'' é aquilo que o público encontra quando sai em busca de um thriller de suspense: um vilão vistoso, multifacetado; um outro protagonista que é imperfeito o bastante para ser interessante; e acima de tudo, uma trama que mantém o espectador sempre pensando e tentando adivinhar, enquanto se diverte. As surpresas que o filme oferece não surgem como resultado de informações que a dupla de roteiristas espertos e leais (para com o publico, diga-se como outro ponto a favor deles) estaria sonegando, mas sim porque eles estão sempre um passo à frente de quem assiste.
Ted (Anthony Hopkins), engenheiro construtor de aviões, é homem com mente brilhante, detalhista até a obsessão, absorvido pelo trabalho. É casado com Jennifer, que vive ardente romance com um policial. Ted descobre o caso. Astuto e frio, ele planeja o crime perfeito. Mete uma bala na cabeça da mulher. Reconhece ser o autor dos disparos é preso e insiste em ser seu próprio advogado. Na acusação publica está Willy (Ryan Gosling), advogado em ascensão profissional.
A mesa está posta para a condenação: há uma confissão oral e outra escrita, o acusado não aparenta muita lucidez. Mas tudo se complica porque a arma do crime não aparece, e o policial que obteve a confissão é ninguém menos que o amante da mulher. A partir deste momento, o filme coloca em cena um duelo de afiados neurônios, além de certas questões éticas e morais.
O roteiro se propõe ainda, com discreto mas efetivo sucesso, investigar a condição humana e se aprofundar na complexidade das emoções que se exteriorizam no confronto entre a veterana sabedoria do assassino e a jovem arrogância do acusador. O diretor Gregory Hoblit, um expoente da linha média hollywoodiana, conduz a história com uma pulsão narrativa bem pouco usual na indústria americana de cinema.
Apesar da presença dominadora do sempre hipnótico Anthony Hopkins em qualquer elenco, aqui o duelo entre os personagens também atinge o nível das interpretações. Ryan Gosling vai crescendo a cada nova sequência e logo atinge o mesmo nível de excelência de seu oponente.

mockup