Cinema/Estréias - Thriller bem acima da média
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de setembro de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Neste interminável, patético desfile de ''americanidades'' cinematográficas que anima dia e noite o circo da exibição comercial no Brasil - e no resto do planeta, o que há muito deixou de ser novidade aterrorizante , é preciso estar atento para não deixar que a estimulante originalidade da parte se confunda com a ignominiosa mesmice do todo. Filmes raros como este ''Identidade'', em lançamento nacional a partir de hoje (veja a programação de cinema na página 2), se por um lado atestam a eternidade de ''a exceção confirma a regra'', por outro alimentam aquela última esperança de que Hollywood, qual pós-moderna Madalena arrependida, possa deixar o bordel e alcançar a redenção...
De início, ''Identidade'' não parece nada além de uma agradável homenagem àquele estilo de thriller de mistério chancelado por Agatha Christie, em que um grupo de dez pessoas descobre que no meio delas se encontra um assassino e que ninguém tem como escapar do local onde estão compulsoriamente isoladas evoca-se, sem dificuldades e sem culpa, ''O Caso dos Dez Negrinhos'', um clássico. A chuva não pára, os carros não funcionam, os telefones estão mudos, as portas rangem, os portões balançam sozinhos, os corpos se sucedem. Já se viu tudo isso antes. Mas não se enganem: ''Identity'', mais do que um banal ''thriller"''de entretenimento, é uma peça com alta voltagem de originalidade. E isso é muito mais do que seria lícito esperar.
Violência e lesões corporais são frequentes, embora o estilo do filme seja refrescantemente antiquado a platéia pode até ser induzida a gritos e risos, muito mais do que àquelas sensações frias e repulsivas do modismo contemporâneo. Exatamente como o filme se impõe como novidade não vem ao caso aqui e agora. De qualquer maneira, suficiente é dizer que, se em determinado momento a projeção for interrompida e a platéia submetida à rápida enquete, todos estarão absolutamente seguros sobre quem é o autor dos assassinatos. E absolutamente todos vão se enganar.
''Identidade'' se passa quase inteiramente numa única locação, um lúgubre motel isolado por uma tempestade. Julgando ter encontrado um local seguro para passar as horas de tormenta, reúne-se ali uma dezena de personagens. Ed (John Cusack) é o ex-policial de Los Angeles, agora motorista da mimada ex-estrela Caroline (Rebecca De Mornay, quase irreconhecível); Rhodes (Ray Liotta) é o policial levando o prisioneiro Maine (Jake Busey); os recém-casados Lou e Ginny (Cléa DuVall e William Lee Scott), voltando de Las Vegas; pai, mãe e filho com problemas familiares (John C. McGinley, Leila Kenzle, Bret Loehr), e a ex-call girl Paris (Aman Peet). Mais dois personagens, talvez acessórios ou não (a ambiguidade é força motriz do argumento), são um psiquiatra (Alfred Molina).
Uma esperta introdução coloca certas informações que serão úteis mais tarde. Então, um a um ,os hóspedes vão sendo assassinados. E a dose de mistério aumenta, na medida em que vão se evidenciando as debilidades daquelas personalidades acuadas, de acordo com o lado nebuloso dos respectivos passados. Afinal, nenhum deles parece estar ali por acaso, e as mortes aparentemente ocorrem numa cadência previamente estabelecida. Há, é claro, um segredo em comum, trabalhado entre diversas outras cartas ocultas e manipuladas com precisão pelo roteiro de Michael Cooney, também autor do livro. Por isso é um filme que tem muito a ver com climas e atmosferas.
Embora sem dúvida seja um filme de conjunto, ou uma peça coral regida com mão firme pelo diretor James Mangold (''Copeland''), ''Identidade'' pertence mais a John Cusack do que a qualquer outro do elenco. Aquela expressão de sempre, de cômica surpresa, está aqui modulada para uma espécie de humanidade mais dura, triste e portanto mais rica. É intrigante e inesperado apreciar seu trabalho numa chave próxima aos personagens do ''film noir'', carregando o peso de um passado traumático. É o ator certo para o personagem, adicionando à habitual delicadeza uma até então insuspeitada reserva de ira e sugerindo que também é dono de um lado ''sombrio'' que ele apenas começa a explorar.


