Nada de tipos pitecantrópicos arrastando suas fêmeas pelas grenhas: o homem pré-histórico era um cavalheiro, capaz de percorrer centenas de quilômetros a pé, enfrentando toda sorte de bestas gigantes e inclemências climáticas apenas para resgatar sua dama. Sim, isto mesmo, sua dama. Não esta da iconografia tradicional, mal cuidada, de aparência repulsiva, mas uma candidata à herdeira de Jennifer Connelly - com aquele par de olhos celestiais que somente estrelas hollywoodianas têm. E modos de princesa.
Esta visão idealizada, falsamente romântica, literalmente deslocada no tempo da ficção, é só um dos desatinos cometidos pelo alemão Roland Emmerich em ''10.000 a.C.'', blockbuster que chega hoje ao circuito mundial precedido pela fama de seu realizador. Fama que nunca foi marcada pela delicadeza, como são testemunhas ''Stargate'', ''Independence Day'', ''Godzilla'' e ''O Patriota'' - fica de fora ''O Dia Depois de Amanhã'', sem dúvida seu filme mais decente. Mas ''10.000 a.C.'' supera tudo já visto antes, porque não tem o que os outros tinham: construção sólida, situações bem amarradas, cenas de alto impacto e uma imaginação visual própria do cinema classe B, de baixo orçamento, ornamentado com o aporte da alta tecnologia.
Não se trata somente da falta de rigor (pré) histórico, geográfico e antropológico que agrega maior confusão ao relato, recheado de erros, licenças e simplificações. O problema maior do filme é que ele se parece com certas aulas chatas e desmotivadoras. Aliás, este é só um dos problemas maiores do filme. Há outros. Como a incorrigível incapacidade de monopolizar a atenção do espectador em seus 109 minutos de duração.
A mescla de gêneros, com ênfase no épico de aventuras e no melodrama romântico, nunca funciona. As poucas cenas com maior espetaculosidade (a caça ao mamute e a rebelião dos escravos) ocorrem na abertura e no final. O impossível é preencher o extenso deserto de idéias entre estes dois pontos. E então o público é obrigado a padecer nas mãos de várias subtramas tão medíocres quanto óbvias. Os personagens centrais são arquétipos nada interessantes, por conta de gente inexpressiva com pouca ou nenhuma intimidade com o ofício de interpretar.
É quando se chega ao ponto de maior estrangulamento da dramaturgia (sic): os diálogos. Se não se tratasse de um filme solene (que pretende mesmo ser), até que por momentos poderíamos pensar numa paródia. Tudo o que é dito na verdade funciona ao inverso, isto é, com efeito não desejado. Comoção e emoção provocam risos involuntários.
''10.000 a.C.'' é o filme menos eficaz, sob todos os pontos de vista, da carreira de Emmerich. Mesmo pensado em termos de grande espetáculo é um tiro n'água. O abundante e muito digitalizado desfile de paisagens e bestas, estilo parque temático, inclui um estouro de mamutes, um combate mortal contra um deles, um par de encontros com enorme tigre dentes de sabre e a aparição de certa ave desconhecida e super-desenvolvida. As paisagens são caóticas. Sem qualquer solução de continuidade se passa de montanhas nevadas à selva tropical, para logo se estar de volta à neve das montanhas. Com saudades, o espectador evoca os animadíssimos Diego, Sid e Manfred de ''A Era do Gelo'' e tem a certeza de foi enganado.
A melhor maneira de não se irritar com as desventuras do herói D Leh (Steven Strait) em luta contra as forças da natureza e a violência das tribos agressoras é levar tudo com bom humor, como quem se coloca estoicamente com a missão de testemunhar um absurdo de grandes proporções. Fica ao final a impressão de um filme cortado, reeditado e abreviado - ou seria somente a extrema boa vontade de quem anseia por uma explicação diante de tantas coisas desconexas ?

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