Faltam salas em Londrina para dar vazão aos filmes que continuam entrando em circuito nacional ou o lançamento de algumas produções anda mesmo atrasado, por conta do antigo e insolúvel jogo de forças entre distribuidores (a ''empurroterapia'' também é coisa de cinema) e exibidores, sempre tentando dar um jeitinho para só disparar o tiro certo nas bilheterias? Um tanto de cada, com certeza. Semanas como esta têm sido frequentes, em que os títulos programados já estão há algum tempo cumprindo carreira nas capitais e cidades de porte similar - mas evidentemente com maior oferta de telas. Não que seja produto indispensável, mas ''A Ilha'', por exemplo, deveria estar na linha de frente, colhendo os frutos comerciais de um trailer com alto índice de rotatividade no Multiplex Catuaí. Diante do imediatismo do consumo instantâneo e globalizado, não há como negar que um atraso de sete dias já vem com data de validade quase expirada.
Portanto, dos três filmes que o londrinense poderá ver a partir de hoje, nenhum é mais lançamento nacional. O que, por outro lado, de maneira alguma é condição que torna inválida uma visita ao cinema, especialmente se for para conferir aquele que merece mais apreço. ''Tentação'' (veja a programação de cinema na página 2) é um típico produto do chamado cinema independente, o cinema ''indie'', que prefere transgredir e atravessar fora da faixa nos intenso transito hollywoodiano se bem que o frescor e a ousadia do início já não são os mesmos.
Dois casais. Edith (Naomi Watts) e Hank (Peter Krause), Terry (Laura Dern) e Jack (Mark Ruffalo). Eles são professores de Literatura em pequena universidade da Nova Inglaterra. Cultivam, além de velha amizade, uma certa rivalidade profissional. Elas, somente amigas. O quarteto está ali pelos trinta e poucos, tem filhos pequenos. Em comum também um certo tédio pela vida suburbana sem grandes expectativas. Logo no prólogo, o diretor australiano John Curran informa o espectador sobre o fogoso caso que Jack e Edith estão mantendo, enquanto que paralelamente insinua certa atração entre Hank e Terry. Mas não é, como se poderia pensar, uma historieta leviana sobre swingers em versão pornô light.
''Tentação'' constrói e desconstrói um complexo quebra-cabeça emocional, com os ingredientes básicos para este tipo de dramaturgia: segredos e mentiras, culpas e desejos, suspeitas e reprovações, angústias e vinganças, lealdades e dilemas morais há ainda um tempero à base de sadismo e perversão, adicionado com providencial recato pelo roteiro e direção.
Ainda que a trama esteja ambientada nos dias atuais, há um certo anacronismo nas preocupações que manifesta, e também na maneira de expressá-las. É como se os personagens estivessem presos numa cápsula do tempo, ou melhor, como se estivessem nas páginas de um roteiro guardado por décadas e somente agora desengavetado. Pode-se também torcer o nariz diante de certa simbologia óbvia semáforos e barreiras ferroviárias indicando impossibilidade. Também questionável uma solenidade que passeia pela narrativa, de braços dados com uma trilha musical às vezes com o peso de uma tonelada.
Mas não há como negar elegância a esta história de boa escritura e direção idem, e que tem no elenco talvez o seu ponto mais consistente, com inúmeros grandes momentos de bravura dos casais de atores, seja em diálogos ou monólogos em que os personagens expõem suas ambições e fracassos. Como mecanismo que disseca a hipocrisia, o cinismo, a mentira, a competição e a crise entre casais, ''Tentação'' tem o grande mérito da honestidade. Uma bobagem, o título brasileiro, ignorando a densa metáfora contida no original: ''We Don't Live Here Anymore'' (Nós Não Vivemos Mais Aqui).

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