CINEMA/ESTRÉIAS - Quando quase nada é muita coisa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Dois homens se encontram num certo dia de agosto de 1942 nos confins do território brasileiro conflagrado pela seca, e a partir deste encontro criam laço de amizade fundado na empatia que se manifesta aos poucos. Um é alemão fugido da guerra na Europa. O outro é nordestino também em fuga, mas de outra guerra, esta já perdida, a do homem contra a natureza inflexível, a miséria absoluta e o descaso permanente. É desta carona fortuita, deste encontro implausível que nasce uma história entre seres contrastados em identidade física, psicológica e cultural. Uma história na verdade sem pretensões de transformar muita coisa, mas com a disposição firme de ser original, lírica, engraçada e emocionante.
''Cinema, Aspirinas e Urubus'', título de estréia surpreendentemente maduro do pernambucano Marcelo Gomes, é um filme semi-árido como a paisagem que lhe serve de cenário. É um autêntico B.O. (baixo orçamento). Mas é um filme pequeno e delicado que se agiganta quase sem que se perceba, porque permanentemente irrigado por uma generosidade que vai aos poucos permeando a narrativa e tornando perfeitamente natural a luz dura, abrasiva, estourada, que mostra céu e terra brancos, calcinados como o sertão glauberiano.
Johann (Peter Ketnath) é o gringo motorizado (seu caminhão é bem equipado, moderno) que percorre o agreste vendendo a novidade das aspirinas a uma população sertaneja tão carente quanto embasbacada com o marketing jamais visto: filmes em 16mm que o alemão pacifista projeta no meio da rua dos vilarejos. Ranulfo (João Miguel, um achado da produção) é o retirante que pede carona com o Rio de Janeiro na mira, como idéia fixa de salvação. A dupla aos poucos se entrosa e segue de canto em canto sob o sol escaldante. No caminho e nas paradas, muita conversa, entre silêncios e observações mútuas. E também revelações, que brotam naturalmente, sem a solenidade do tom sentencioso de verdades imutáveis.
A convivência deixa tácito que aquelas duas identidades culturais tão distintas são complementares. O fascínio de um pela personalidade e pela atividade do outro é dado importante. Johann é o temperamento solar, é curioso, acha tudo interessante, está sempre disposto a trocar. Ranulfo (personagem inspirado no avô do cineasta) é meio mau humorado, faz troça de sua gente mas não por maldade, e no meio do caminho, nas quebradas ''on the road'' também se abre ao semelhante.
A despeito de sinalizar algumas vezes nesta direção, o filme de Marcelo Gomes não cultiva o melodrama, e opta sempre pela sobriedade, pelo ritmo. É isto, é este ritmo que é quase nada que imprime grandeza a este filme que, em sua assumida despretensão, fala de muitas coisas, do coração do Brasil, das diferenças culturais e sociais (sem fazer disso proselitismo), de preconceitos, da magia do cinema, de todas as guerras, da solidão compartilhada, da amizade, da dedicação.
''Cinema, Aspirinas e Urubus'', sem dúvida obra pessoal, é à sua maneira prova eloquente de que o cinema brasileiro mais recente prescinde de enquadramentos ou formatações ou segmentações. É apenas bom cinema brasileiro, desgarrado de rotulações.


