CINEMA/ESTRÉIAS - Pesadelo pagão & intriga social
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de outubro de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Verdadeiro pesadelo pagão em plena luz do dia, o filme O Homem de Palha, dirigido em 1973 por Robin Hardy - nome até hoje de difícil trânsito em qualquer quem-é-quem especializado em cinema - mas com roteiro do respeitável dramaturgo Anthony Shaffer, ganhou justa fama como título de culto. Raridade no contexto do terror britânico, The Wicker Man acabou sendo um dia visto por Nicolas Cage, que se encantou com a realização. O ator se tornou então o principl responsável pela refilmagem que chega hoje ao circuito comercial brasileiro (veja a programação de cinema na página 2).
Dirigido por Neil LaBute, O Sacrifício foi apresentado hors concours mês passado no Festival de Veneza. Não havia porquê, a não ser talvez pela imposição do selo WB na faixa nobre da mostra, que costuma aceitar e programar dejetos industriais made in USA. O resultado/repercussão foi pouco menos que desastroso, e diretor LaBute agüentou o rojão sozinho na coletiva, já que Nicolas Cage não deu as caras e evitou o constrangimento de ver seu projeto pessoal detonado sem qualquer constrangimento ou atenuante. Nem mesmo aquela que até bem pouco tempo catalogava o diretor e dramaturgo de 43 anos entre os mais interessantes surgidos na última década - são dele os instigantes Na Companhia dos Homens, Meus Amigos, Meus Vizinhos e o menos votado Possessão.
Neste novo The Wicker Man, Nicolas Cage é um policial anti-tráfico da Califórnia que no momento tenta administrar um trauma adquirido: foi testemunha impotente de um trágico acidente. Temporariamente afastado, recebe carta de ex-namorada pedindo socorro. A filha dela desapareceu numa ilha remota, ao noroeste do Pacifico, habitada por comunidade de mulheres fiéis a estranhos rituais e hostis a qualquer visitante. O policial chega para desafiar a ordem matriarcal vigente e o sincretismo.
Este argumento mantém praticamente inalterado o original. Mas LaBute pretendeu ajustar à sua maneira as relações entre os personagens na tentativa de tornar a história mais verossímil. Mas como mexer exatamente naquilo que era o charme da anterior, seu evidente despojamento e truculência, sua inquietante, incomoda, quase irreal atmosfera?
Além disso, indevida e pretensiosamente, LaBute introduziu um elemento metafórico que parece não se ajustar às medidas e aos propósitos da história: a colméia de abelhas comandada por uma rainha, na qual os homens cumprem papel meramente acessório reduzido à procriação. Réu confesso, o diretor explicou em Veneza que é mórmon e que conhece as particularidades das congregações com tendência à endogamia e ao conservadorismo. Não convenceu.
Mas viajou mais além, informando que pretendeu abordar o choque primário entre homem e mulher, e os temas de política sexual a partir de uma visão de matriarcado que fosse perturbadora. Bem, não foi bem este o filme que os jornalistas assistiram, e máximo que ele conseguiu foi dar mais munição aos críticos que já o consideravam misógino.
As referências intelectualizadas a crenças religiosas primitivas e à emancipação feminina esvaziam o clima aterrorizante de conspiração e suspense, retiram a emoção da trama e minimizam o interesse mais sensorial diante da intriga. Além disso, a capacidade de criação visual de LaBute é aqui ainda mais sofrível do que seu texto. Ao final, temos um pífio encontro entre outro cult, A Testemunha de Peter Weir, e A Vila" de Shyamalan.


