A primeira impressão, a de que o espectador está diante de um filme de denúncia terceiro-mundista, típica e tópica, se transforma, logo após a sequência de abertura, em um olhar extremamente original. O cenário mais amplo é o Haiti dos anos 1970, em plena ditadura Baby Doc Duvalier. O cenário mais intimista é um pequeno hotel da capital, Porto Príncipe, na verdade um laboratório de contrastes, tanto sociais como psicológicos dos personagens.
De costas para a miséria de um dos mais pobres países do Ocidente, miséria que somente será vista quando o filme já estiver adiantado, três damas norte-americanas, cinquentonas todas e frustradas em suas trajetórias pessoais, se refugiam neste minúsculo éden para praticar turismo sexual com jovens negros nativos.
O filme, estreando hoje na cidade (veja a programação de cinema na página 2), é ''Em Direção ao Sul''. O diretor Laurent Cantet, ao abordar esta narrativa sobre necessidades sexuais e afetivas de mulheres de ''certa idade'', também contextualiza sua trama com temas como servidão, abuso e manipulação nas relações humanas. Ao longo do filme, ele retoma o discurso sobre dinheiro, classe e poder, já muito bem colocado em seus dois notáveis filmes anteriores, ''Recursos Humanos'' e ''O Emprego do Tempo''.
Na história, Karen Young interpreta a romântica Brenda: há três anos, antes da atual temporada, ela esteve neste mesmo recanto paradisíaco, onde experimentou sessões de sexo ardente com um garoto haitiano de 15 anos. Neste intervalo, ela não pensou em nada, além disso. Seu casamento desmoronou, e ela agora está por sua conta e risco. Mas quando volta ao hotel para a atual temporada, encontra seu jovem eleito, Legba (Menothy César, prêmio de revelação em Veneza 2005), vendendo favores sexuais a outra mulher, a pragmática e misteriosa Ellen, professora universitária vivida por Charlotte Rampling.
Estas mulheres têm inúmeros requisitos em comum: solitárias, nenhuma delas é rica. Pertencem à classe média, transitam pela mesma faixa etária, buscam as mesmas sensações urgentes e coincidentemente têm confortáveis recursos para comprar sexo com os saudáveis jovens da ilha, com dinheiro ou presentes. Mas neste sentido, Laurent Cantet, que estruturou muito bem seu roteiro, inclui um elemento que modifica estes relacionamentos. O comércio que estas mulheres estabelecem com os profissionais nativos não tem a premência, a impessoalidade ou a sordidez que costumam caracterizar as relações de homens com prostitutas.
Assim, são muitos os ângulos oferecidos por este absorvente relato para analisar a sexualidade como instrumento de poder econômico, social e político. O filme é sempre conduzido com lucidez e sensibilidade, especialmente quando trabalha tensões subjacentes entre as duas mulheres com respeito a seu objeto de desejo. Por outro lado, Cantet não se omite em nenhum momento, e coloca o dedo na chaga da situação política, expondo a brutalidade repressora de um regime que castra qualquer esperança de seus jovens e abre portas erradas como a prostituição. Não fosse um filme bem ajustado em muitos outros sentidos, somente o prazer de cotejar duas grandes interpretações femininas já valeria uma visita ao cinema.

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