É um erro buscar lições de História no cinema comercial. Ainda há pouco tivemos ‘‘Tróia’’, e agora mesmo ‘‘Olga’’ está aí ao alcance para reforçar a idéia. Diante de filmes ditos ‘‘históricos’’, se o espectador tiver sorte encontrará um pouco de diversão, ação e emoção traduzidas em narrativa dinâmica, que transportará a imaginação a épocas e lugares talvez fictícios, mais ou menos interessantes e quase nunca memoráveis. ‘‘Rei Artur’’, lançamento em todo o país a partir de hoje (veja a programação de cinema na página 2), nem esta sorte proporciona.
  O filme dirigido por Antoine Fuqua propõe a existência de um guerreiro chamado Artur (Clive Owen) e seus amigos Lancelot (Ioan Gruffudd), Gawain (Joel Edgerton) e Galahad (Hugh Dancy). Com a ajuda de Guinevere (Keira Knightley), eles combatem os saxões que invadem Gales e a Inglaterra depois que os exércitos romanos decidem abandonar a Ilha Britânica. Ainda como parte deste conflito estão algumas tribos nativas da Inglaterra, entre elas os Woads chefiados pelo curandeiro Merlin (Stephen Dillane). Essa mistura étnica e cultural serve de fundo para diversas batalhas, romances forçados e muita conversa que não levam a nada.
  Esta ‘‘história real por trás da lenda’’, confeccionada pelos roteiristas hollywoodianos dublês de historiadores, excluiu todos os eventos interessantes e fantasiosos da lenda e deixou apenas uma árida narrativa que pretende iludir com heróis estóicos vividos por atores de expressão sempre grave, cenários pictóricos e batalhas cruas - mas paradoxalmente limpas e antissépticas, sem vestígios de sangue. A trama parece solene, sólida e significativa, mas é tão profunda quanto uma pia. A semi-nua Keira Knithley, que vem sendo vendida como novo sex-symbol, demora quase uma hora para aparecer como uma versão mini da heroína amazona Sheena, distribuindo pancadas à vontade.
  O diretor Fuqua, que há dois anos fez aquele muito bom ‘‘Dia de Treinamento’’, veículo para o Oscar de Denzel Washington, pega pesado na lentidão e na indefinição de rumos em nome de uma abordagem que troca o mistério e o encanto da lenda de Artur pelo realismo. Assim, quem procurar não vai achar a magia de Merlin, as traições de Morgana, as emoções de Camelot, a confraria dos honrados cavaleiros da Távola Redonda, o triângulo amoroso entre Lancelot, Guinevere e Artur, o mito de Excalibur e a procura do Santo Graal.
  Estes ingredientes de sonho e sortilégio eram o charme da história, e disso sabiam muito bem os trovadores de séculos passados. Em substituição ao amplo predomínio da imaginação, respeitado pelo insuperável ‘‘Excalibur’’ de John Boorman em chave dramática, ou até mesmo pelo ‘‘Monty Python e o Santo Graal’’ em vertente hilária, este ‘‘Rei Artur’’ somente se vale de precisão técnica como argumento de convencimento - fotografia excelente e locações adequadas ao tal espírito de verossimilhança. A bem da justiça ‘‘histórica’’ (mas este detalhe é uma lendária ficção, ou não é?), há uma fascinante batalha sobre um rio congelado.

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