Muitas evidências autorizam o analista a concluir que sim, existe um forte cinema belga, por maior proximidade geográfica e identidades culturais que possam conectar - e colocar alguma dúvida leiga a este respeito - à França vizinha, influente na área da realização cinematográfica. Mais recentemente, dos anos 80 para cá, a vitalidade deste cinema ganhou maior visibilidade através de prêmios em festivais importantes, com destaque evidente para os irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne, que fazem um cinema social denunciando os desmandos da globalização no quintal da Europa opulenta.
Mas há um nome a ser levado seriamente em conta - Lucas Belvaux, diretor, roteirista e ator. São dele os três filmes, genericamente batizados ''Trilogia'', que podem ser vistos a partir de agora, e nas duas próximas semanas , na sala alternativa da cidade. A estréia de hoje é ''Um Casal Admirável'' (veja a programação de cinema na página 2), e a seguir serão exibidos ''Em Fuga'' e ''Acordo Quebrado''. É uma fascinante experiência de cinema - realizar três filmes nos quais os personagens principais de um serão os personagens secundários dos outros dois. Todos na faixa dos quarenta e confrontados com a perda de suas ilusões amorosas, existenciais, políticas.
São três títulos de gêneros diferentes: a comédia sentimental ou romântica, o thriller e o melodrama. Os argumentos traçam e entrelaçam a vida de três casais de Grenoble. Não é uma série, e nem objeto conceitual: a trilogia trabalha com os mesmos personagens no mesmo momento e num mesmo local , mas a cada vez mudando radicalmente o centro de gravidade. Nada de episódio um, dois ou três, mas somente personagens diferentes que requerem um tom, um tempo e uma dramaturgia de acordo com suas matrizes de vida.
''Um Casal Admirável'' é comédia quase em chave de vaudeville. Encravados na burguesia de Grenoble, os casados do título se debatem num risível imbróglio. Alain (François Morel), dono de pequena empresa de alta tecnologia, pai de dois adolescentes, é um hipocondríaco que se acha doente e próximo da morte. Faz tudo para não inquietar a mulher, Cécile (Ornella Muti), madura, coquete e autoritária. Ela acha que ele esconde alguma coisa e, ciumenta e angustiada, contrata um detetive, Pascal (Gilbert Melki), para seguir o marido. Que por sua vez também tem lá suas suspeitas, não só da infidelidade mas também de que ela quer roubar patentes de sua empresa. O detetive se apaixona por ela, e forja provas de que o marido tem de fato uma amante.
É prioritariamente entretenimento em estado puro, trepidante, repleto de achados nos diálogos bem escritos. Mas há um componente insano que se encontra subjacente: por que um casal aparentemente feliz e com expectativas de vida preenchidas precisaria montar uma tal trama de ilusões, a não ser por conta do vácuo existencial de cada um? Há outros detalhes deste entorno que serão avaliados tanto em ''Em Fuga'' e ''Acordo Quebrado'', embora nenhum dos três filmes crie dependência. Vale dizer, eles se esgotam em si e podem ser apreciados de forma independente um dos outros. Mas apanhados em conjunto, com certeza formam esta trilogia que é uma espécie de manual de sobrevida ali pelos meados da idade adulta. Quem vir, saberá que é possível sobreviver.

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