George W. Bush andou há pouco condecorando velhos ex-combatentes da tribo Navajo que lutaram na frente de batalha durante a Segunda Guerra Mundial. Como nada dito ou feito em público pelo atual presidente americano tem maior credibilidade e/ou outros significados além da ênfase da belicosa índole republicana, ultimamente assombrada pelo terrorismo internacional, ficou a dúvida. Teriam os peles-vermelhas de fato contribuído para a vitória dos outrora ferozes inimigos caras-pálidas nos confins do Pacífico, ou Bush estaria apenas fazendo jogo de cena mobilizador como mais um reforço na escalada contra Saddam Hussein? Seja qual for a resposta - e deve levar o prêmio quem cravou a segunda alternativa -, o episódio real envolvendo cerca de três dezenas de índios está contado no drama de ação ''Códigos de Guerra'', com estréia nacional a partir de hoje em todo o país (veja a programação de cinema na página 2).
Ironias históricas, não fosse a própria História uma sucessão de paradoxos. Quase dizimadas no século passado, por conta da chamada colonização da região oeste, as nações indígenas dos Estados Unidos sobreviveram como puderam ao extermínio. Daquele holocausto restaram lembranças hediondas, e ao longo das décadas seguintes as novas gerações das minorias étnicas tentaram, com enorme dificuldade, fazer prevalecer a verdade dos fatos e consequentemente ainda resgatar uma imagem distorcida pelas lendas e pelo próprio cinema.
''Windtalkers'', a aventura de guerra dirigida por John Woo, fala de um grupo de heróis praticamente desconhecidos que atuou na Segunda Guerra Mundial: os soldados navajos. A língua falada por eles serviu como base para a criação de um código de comunicações que resultou indecifrável para os japoneses, sendo considerado fator decisivo para o avanço e a vitória de tropas americanas no Pacífico. Os navajos foram recrutados, treinados e transformados em poderosas armas secretas dos EUA, ao mesmo tempo em que se converteram em inestimáveis presas para o exército japonês. Segundo narra o filme, cada voluntário indígena era acompanhado por um oficial branco, agindo ao mesmo tempo como uma espécie de anjo-da-guarda mas também como um potencial carrasco. As ordens eram inequívocas: nenhum navajo poderia ser apanhado com vida pelos japoneses.
Não são necessários malabarismos cerebrais para imaginar que um tema como este oferecia duas vertentes preciosas. A primeira, uma rica, evidente carga de dramaticidade. A segunda, a possibilidade de lançar sobre a narrativa um olhar crítico com sensível dose de ironia. De um lado, caras-pálidas ainda desconfiados e forçados a proteger velhos inimigos. De outro, as vítimas de ontem agora trunfos de seus ex-algozes. Ainda a considerar o conflito moral que se apresenta quando o objetivo militar é colocado acima de sentimentos pessoais. Tudo isso, porém, mal se toca pelo caminho, e resta superficialmente abordado. A dupla de roteiristas priorizou as muitas e ferozes cenas de batalha, deixando grande parte do tempo para as habilidades coreográficas de John Wood, o perito de sempre em ação ampliada e em manifestações de amizade viril.
Nicolas Cage é Joe Enders, o marine com uma boa dose de culpa mal resolvida que deve proteger a todo custo o navajo Ben Yahzee (Adam Beach) ou matá-lo a todo custo se o indígena for pego com vida pelos japoneses. A outra dupla central (os demais personagens praticamente inexistem como representações dramáticas), com a mesma convivência e o mesmo tipo de tensão, é vivida por Christian Slater e o ator navajo Roger Willie, mais ligados pela linguagem musical. Como em meio a tantos bombardeios sobra pouco ou nenhum tempo para um desenho mais detalhado do perfil desses quatro personagens, tudo entre eles acaba se resolvendo a toque de caixa, sem qualquer profundidade, mediante uma ou outra frase sentenciosa. E nem o diretor John Wood parece muito disposto a colocar sua marca mais pessoal nas sequências ''físicas''. E se alguém tiver curiosidade sobre a cultura navajo, com certeza não vai encontrar grande coisa.

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