Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha 2
O dinamarquês Lars von Trier, um dos fundadores do barulhento Dogma-95, movimento de ‘‘castidade’’ que surgiu para expurgar o cinema dos males da excessiva modernidade, principalmente estética, se auto-intitula especialista em nuances da cultura dos Estados Unidos. Faz sentido o cabotinismo deste cineasta chegado a um marketing em sua cruzada anti-ianque. Com idêntica pontaria, e na mesma e devastadora linha de abordagem crítica aplicada anteriormente a ‘‘Dogville’’ e ‘‘Manderley’’ (recém-exibido no circuito local), ele agora ataca com ‘‘Querida Wendy’’, em lançamento hoje em Londrina.
  Apesar da direção vir assinada por Thomas Vinterberg, compatriota e parceiro de Dogma, este melodrama, que é afinal sobre extermínio e aniquilação, traz as impressões digitais de von Trier espalhadas por toda parte, especialmente na perspicaz observação de uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos. Ele com certeza escreveu o roteiro com a intenção de dirigir, e embora não faça parte oficialmente de sua trilogia ‘‘americana’’ em andamento, ‘‘Querida Wendy’’ poderia bem ser o terceiro segmento, dado seu tema de evidente confronto e sua idêntica trajetória dramática.
  É a história de Dick (Jaime Bell, o garoto de ‘‘Billy Elliot’’), adolescente inadaptado ao trabalho pesado que vive em cidadezinha mineira ao sudoeste dos Estados Unidos - o espectador não deve estranhar uma certa abstração espacial, e particularmente em relação ao tempo, mais ou menos com um pé no século 19 e o outro na contemporaneidade.
  Por acaso ele encontra um revólver com cabo de madrepérola, e o batiza com o nome de Wendy. Dick se apaixona pela arma, apesar de ser pacifista convicto. Esta posição leva o rapaz a constituir um grupo, um clube com outros cinco jovens outsiders, os Dandies. Em comum, a paixão pelas armas e os ideais pacifistas, combinação evidentemente inconciliável. Submetidos a estritas regras que os obrigam a manter as atividades em segredo, os Dandies e seu universo utópico serão postos à prova pela polícia da cidade.
  O argumento se estrutura em torno da carta de despedida que Dick dirige a Wendy, recordando o momento em que se conheceram e a curta vida do clube. As intenções dele e dos seguidores são inicialmente limitadas ao âmbito especulativo e lúdico, distantes de qualquer ação revolucionária. Mas a realidade será bem outra quando forem descobertos e o medo passar a dominar o dia a dia destes adolescentes.
  A parábola é típica do pós 11 de setembro. É sobre a paranóia americana, sobre a absurda política de armar cidades inteiras que depois vão se rebelar e sobre aquele ponto de vista míope de pretender acabar com a violência através da força. Esta me parece a ótica muito própria e delimitada do roteirista Lars von Trier, enquanto seu compatriota e diretor Thomas Vinterberg se mostra mais interessado em ressaltar o desencanto das novas gerações que tentam mudar um mundo hipócrita, a frustração do jovem adolescente que crê em ideais e que não se conforma com o conformismo.
  Mais drama social que melodrama romantizado, mais ideológico que sentimental, esta espécie de neo western se mostra nitidamente dinamarquês em sua direção de arte estilizada, reduzida a alguns poucos cenários e a objetos carregados de sentido simbólico. Mas os sets aqui são realistas, não desenhados no chão ou imaginários como em ‘‘Dogville’’. Este realismo, aliás, encontra apelo também na fotografia de fortes contrastes, dando matizes definidos a este cinema de reflexão moral em torno da violência e do medo. Uma trilha musical cool e cult, a cargo da banda Zombies, acrescenta considerável clima ao filme.

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