CINEMA/ESTRÉIAS - Épico sobre o amor impossível
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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
O espectador local sabe que paciência é sua maior arma neste momento de pré-Oscar. Ainda mais quando esta não é uma safra campeã de bilheteria, e todos os filmes nominados têm um timing de chegada mais compassado. O exibidor está com um olho na estatueta e outro nos demais títulos em distribuição e que nada têm a ver com as (boas) escolhas da Academia. E como para ele, exibidor de multiplex, cinema é business, a prioridade é óbvia. Por isso ainda não chegaram ''Sangue Negro'' e ''Conduta de Risco''. A estréia, ou não, vai depender muito da coleta de prêmios na noite deste domingo.
O amor nos tempos da guerra. 1935, numa mansão gótico-vitoriana nos campos de Surrey, Inglaterra. Um fim de semana, verão escaldante. Ali vive a aristocrática família Tallis. E o foco da narrativa vai para as duas irmãs, a jovem Cecília (Keira Knightley) e a impulsiva e imaginativa adolescente Briony (Saoirse Ronan). A relação entre elas e a que ambas mantêm com o atraente e otimista estudante Robbie Turner (James McAvoy), filho da caseira da propriedade, é que vai desencadear o drama central de ''Atonement''.
Briony surpreende a apaixonada entrega de Cecília a Robbie na biblioteca. E logo o acusa falsamente de um crime (sexual) que ele não cometeu. O ato da garota muda tudo, profundamente, e para sempre. A acusação injusta leva o rapaz à prisão, depois à frente de batalha contra os alemães, sempre rodeado de lembranças e ressentimentos. Neste meio tempo, Cecília e Briony dedicam o tempo a cuidar dos feridos.
''Desejo e Reparação'' é uma história épica e de época sobre amor e redenção, um relato sobre o que realmente é e o que parece ser, um olhar íntimo nas indeléveis sequelas psicológicas causadas pela iniquidade de uma intriga injusta. O filme se divide em duas partes, com um epílogo. Na primeira, construída em minúcias e preciosidades formais, arma-se a trama: a culpa e o azar, um erro, um ato de covardia, a mentira banal (e letal), tudo enlaçado para mudar o destino de pessoas. Na segunda mergulha-se na guerra, e na colheita das consequências daquele incidente transformador. No melhor estilo do clássico melodrama fatalista, a luta armada acentua as dores de amores perdidos e atrozes remorsos.
Baseado na novela homônima de Ian McEwan - que aprovou e agradeceu ao roteirista Christopher Hampton a adaptação, considerada pelo escritor como ''o caminho mais sábio'' -, o filme deve ser visto com uma brilhante súmula onde convivem, em absoluta harmonia, desde o despertar sexual até a moral dos anos 1930 e 40, desde as diferenças de classe até a criação literária, desde a tragédia social da guerra até a tragédia íntima de um casal de amantes.
Dirigido pelo jovem (35) diretor londrino Joe Wright, cuja promissora estréia foi com outro desafio literário, o ''Orgulho e Preconceito'' de Jane Austen, ''Desejo e Reparação'' é uma festa para todos os sentidos, e um presente para a inteligência.
Embora o trabalho de Wright como um todo seja permeado por muitos acertos e quase nenhum contratempo, há um momento do filme destinado ao memorial do cinema, imagens de pura antologia, não apenas pela construção estética como por seu significado.
Passada a primeira hora, há um plano-sequência de cinco minutos na praia francesa de Dunquerque. Ali, milhares de soldados ingleses esperam em vão, à beira do desespero, a chegada de navios para cruzarem o Canal da Mancha e chegarem em casa. No filme são cerca de mil extras em movimento continuo. Não se trata apenas de um exercício de virtuosismo de steadycam (aquela câmera atada ao corpo do operador e que se move fluidamente), mas de um exemplo de grande cinema, que consegue transmitir em toda sua dimensão, com poderosas imagens que dispensam as palavras, os horrores da Segunda Guerra Mundial.


